Aventura Confinada

Já há algum tempo que não escrevo por estas bandas. O Terra, Rocha e Alcatrão tem passado por vários momentos de desinspiração ou desmotivação minha, mas este foi um momento diferente. Este foi um misto de emoções; foi um viver intenso desta Aventura que hoje partilho em jeito saudosista: não da Aventura em si – que está longe de terminar – mas do carinho que recebo na forma de comentários daqueles que têm as notificações subscritas pelo email, na forma de estatísticas de visitas, partilhas e até novas subscrições. Curioso o cérebro humano.

Está quase a fazer um ano que esta Aventura começou – e que aventura! Desta vez todos vós vieram comigo, tal como eu fui com todos vós. Iniciámos um confinamento a 16 de Março de 2020 e daí em diante temos vivido sempre com algo em comum: saímos da zona de conforto. Uns mais do que outros, é verdade, mas por mais mesquinhos nos tenhamos tornado, é um facto que ainda não deu a ninguém para comparar o seu Confinamento com o do outro. Comparam-se sintomas deste bicho maldito, aumentos e perdas do ritmo de trabalho, comparam-se até os privilégios de uma varanda ou terraço contra as janelas orientadas à do vizinho, mas felizmente não deu para dizer “O teu confinamento foi melhor do que o meu“, e ainda bem.

Quando tudo começou, muitos aproveitámos para pôr em prática os desejos oprimidos pela falta de tempo. Eu próprio deixei-me levar por uma onda de criatividade e publiquei imenso. Primeiro com a Crónica Carmona, que foi a minha primeira introspectiva à realidade do momento, depois com uma série de artigos que representaram uma média de duas publicações por mês até Agosto – um Recorde para este blog! – e até com a criação de mais separadores que me permitiriam ter mais temas para escrever. Foi bom, enquanto durou.

A minha Aventura continuou por terras remotas de Portugal, aqui na fronteira com Nuestros Hermanos. Saí fora da zona de conforto em níveis difíceis de regressar, e por isso tive de parar. Tive de olhar de fora, entrosar-me, inteirar-me, superar-me. Criei uma empresa, a Beir’Aja, em plena pandemia. Insano, porém assustadoramente optimista, não fosse esta uma empresa de Animação Turística e vocês, os Turistas deste mundo, estavam (e estão) proibidos de turistar.

As Aventuras ensinam sempre algo. O tempo é o professor, o meio é a matéria e nós, alunos, aprendemos tanto quanto tenhamos e saibamos utilizar o material solicitado.

Tive sorte, vim para o sítio onde o tempo demora a passar, onde o ar é leve, onde a vista fora de casa são cadeias montanhosas, preenchidas por carvalhos, oliveiras e pinheiros, onde o som são piriquitos, guarda-rios, corvos e gatos com o cio, para além de vento. Nunca tinha conhecido o som do vento, nu, até agora. Todos estes ingredientes, juntos, permitem-me ser um excelente aluno desta Aventura que está a ser a vida confinada. Claro que continuo a ser o Samuel, que cresceu na cidade e tem ainda a sua antipatia natural, aliada à ironia defensiva e cepticismo automático, mas julgo-me melhor. E só isso já é melhor vida. Uma feliz Aventura.

Marco Geodésico
Talefe (marco geodésico) da Serra D’Opa.

Infelizmente, a vida não são só rosas. Durante esta pandemia já vi de fora algumas tristezas: ambulâncias que não chegam a tempo, ciclos da vida trocados, uma menina das alianças que nos vê bem lá de cima. Já escrevi para mim, já escrevi para despedida, já compus uma autêntica epopeia na mente. Pensamentos de quem existe, lá nos dizia Descartes.

Tive a sorte de ainda não ter contraído Covid-19 – pelo menos que eu saiba – e não faço questão de contrair. Tenho pertencido à turma dos cautelosos, que se mantém longe dos amigos e familiares, que não promove encontros nem se põe a jeito para idas ao senhor doutor, que poderá ter o bicho por lá escondido. Mas é curioso que estou mais perto que nunca de todos. Lá está, os males e tristezas unem as pessoas – felizmente – que vivem as suas vidas esquecidas do propósito da vida social – infelizmente. Pondo de lado as tristezas, tocou-me ser agraciado com constantes mensagens, telefonemas e demais interações que a tecnologia dos dias actuais nos permite, e senti-me mais próximo que nunca de todos, agora que estou mais longe. Senti saudades, que, confesso, é algo raro em mim, e fui sendo visitado por pessoas que de outra forma nem pisariam a calçada do Vale da Senhora da Póvoa.

O futuro aparece envolto em névoa. É incerto, perfeitamente equilibrado na balança do medo e da esperança. Circula já uma vacina que promete libertar-nos, e todos nós ansiamos ser livres! Perdoem-me quando falo por vós, julgo ser legítimo.

Há quem faça planos concretos, do jeito “Assim que isto acabar, vou passar a tarde na esplanada com os amigos todos!” ou “Logo que seja possível vou dar a volta ao país todo e reservar duas ou três viagens com os vouchers que me foram dados em 2020“. Nada contra, até eu tenho uma ou outra ideia. Desde já, apetece-me pegar na mota e ir até ao lar onde a minha avó está fechada, desde que a Aventura começou. Aproveitando a embalagem, passo pela casa da minha mãe, a quem no Natal abracei com a cara afastada, não fosse o Diabo tecê-las. Posso ainda visitar os amigos, claro, ou o meu pai, que até já esteve em “prisão hospitalar” durante a Aventura de todos nós.

Apesar de todos os planos e desejos, o que eu sei é que tudo isso acontecerá quando recuperar a liberdade. E será nesse momento que esta Aventura acabará.

O que se leva desta Aventura Confinada são todas as Aventuras que se começaram graças a ela. São as lições da escola da vida. São as páginas dos livros de História dos que nos sucederão.

Já que estamos juntos nesta Aventura, vamos lá reunir-nos à volta desta fogueira espiritual e chegar a um consenso: Terminamos por aqui esta Aventura, ou temos estofo para mais?

As Aventuras fazem-me sentir vivo, mas há um limite para aquilo que o Homem tolera…

Vamos andando!

One thought on “Aventura Confinada”

  1. Nunca escrevas para a despedida, não aguento essa palavra 😢 escreve para a VIDA com muita fé e força e sê resiliente 🙏. A vida é uma sucessão de caos e coincidências” como escreveu Marcos Piangers… A vida é uma sucessão de ganhos e perdas e, às vezes quando perdemos, também ganhamos…❤️

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