Marialva

Marialva é o sonho físico dos apaixonados pela História Medieval. Está integrada na lista das Aldeias Históricas e, por isso, integra a Grande Rota das Aldeias Históricas (GR22): um percurso pedestre (ou de BTT) que percorre todas as aldeias desta lista, numa extensão de cerca de 500km. Significa então que é uma aldeia digna de visitar de forma isolada, integrada na visita a uma localidade ou ponto de interesse próximos (que mencionarei já de seguida), ou como ponto de paragem num Turismo Activo que faça da GR22 o seu condutor.

Ruínas no interior da Muralha

Podemos dividir Marialva em dois, destacando o Castelo e seu largo na parte de cima da montanha como o chamariz turístico, e a povoação na parte de baixo da montanha como o real ponto de vida humana e movimento.

Infelizmente para a vida económica da aldeia, o Turismo de Marialva vende essencialmente o Castelo. Não é de estranhar, apesar de tudo, pois trata-se de um local maravilhoso, que transpira História e transporta qualquer pessoa no seu interior para o Século XVI, como se os seus portões fossem um portal do tempo. Na verdade foi ali, no interior daquelas muralhas, que sempre se desenvolveu a actividade económica da antiga Vila, o que torna emergente a necessidade de criar atracções para que o Turista desça da montanha e alimente a vida económica da Povoação. A seu tempo.

A Povoação, vista do Castelo

Marialva foi sempre um importante ponto estratégico neste nosso território metamórfico: foi primeiramente erguida pela comunidade dos Aravos, uma tribo Lusitana, e reconstruída pelo período de ocupação Romana, servindo como cruzamento de Vias e, por isso, um ponto de comércio e paragem. De seguida, terá sido ocupada pelos Visigodos que terão perdido a terra para os Árabes. Daí em diante, sabemos todos que o Reino de Portugal foi sendo construído com base numa sucessiva disputa de território com o povo Árabe e com os Reinos de Castela e Leão. Muralhas foram erguidas e sucessivos Reis foram ora repovoando, ou concedendo diferentes graus de importância a esta localidade, sendo que em último lugar foi D. Manuel I quem concedeu carta de Foral Novo a Marialva e a tornou numa imponente praça militar. Tornou-se portuguesa para sempre, e foi sendo progressivamente abandonada.

A ruína da Vida de Marialva

Actualmente, como referido, Marialva tem no seu castelo o seu chamariz e algumas casas no exterior aproveitam quem o visita, na forma de alojamentos locais, pequeno comércio ou até na forma de alojamento de Requinte, pela mão das Casas do Côro. Num dos estabelecimentos de comércio local, mais concretamente no café “O Nicho” – que, para além de serviço de café e bar, vende também artesanato local e lembranças da zona – conversei um pouco com a D. Celina, que me ajudou a perceber a dinâmica actual da aldeia:

  • Feira Medieval: Penúltimo fim de semana de Maio – O ex líbris do entretenimento da aldeia.
  • Mercado, com concertos e comércio: Em julho, num dos últimos fins de semana do mês. Consta que é das primeiras feiras de Portugal, com a primeira data a “1100 e qualquer coisa”.
  • Festa Religiosa: 15 de Agosto (semana inteira em festa se o dia 15 calhar a meio da semana, ou fim de semana quando calha entre sexta e domingo). Para quem desconhece a realidade do Interior do país, em muitas aldeias fazem-se as festas religiosas, comumente chamadas de “Festas da Aldeia”, que levam grupos musicais e promovem comes e bebes. Celebram sempre o Santo Padroeiro da zona.
O Pelourinho, a Antiga Igreja e estruturas em Madeira para a montagem da Feira Medieval

De volta à povoação, temos a completar a oferta de turismo a Quinta do Nobre, onde pernoitei, e dois cafés/bar. Destaque ainda para o sino da igreja, que se faz ouvir através do sistema de colunas cada vez mais utilizado e que toca a cada 15 minutos, mas chegar a esta conclusão demora tempo, pois primeiro somos levados a entender a melodia do sino, e só quando reconhecemos o Avé Maria que sai das colunas conseguimos iniciar o processo de decifragem da frequência do toque, dificultado pelos 5 minutos de atraso do relógio da igreja. Claramente uma distracção peculiar.

Neste largo onde está a cisterna, onde o pelourinho está, dividido entre a luz e a sombra, adeja um silêncio sussurrante. Há restos de casas, a alcáçova, o tribunal, a cadeia, outros não se distinguem já, e é este conjunto de edificações em ruínas, o elo misterioso que as liga, a memória presente dos que viveram aqui, que subitamente comove o viajante, lhe aperta a garganta e faz subir lágrimas aos olhos.
Palavras de Saramago, quem melhor escreveria sobre o que aqui se sente

Próximo de Marialva existe a cidade de Mêda, que proporciona um trocadilho fácil completamente antagónico à sua realidade, onde a oferta de restauração é vasta e de boa qualidade. Está também perto a cidade de Trancoso, integrante das Aldeias Históricas pela sua importante História na constituição do nosso país, que completa a interpretação de Marialva e permite, entre outros, a visita a um dos mais importantes palcos de Batalha do país: A batalha de Trancoso, devidamente assinalada e demarcada, foi uma importante batalha, pois matou importantes comandantes Castelhanos numa prova cabal de conhecimento do Território por parte dos Portugueses, que assim enfraqueceu o adversário e permitiu outra importante vitória, em Aljubarrota. Quem não conhece a lenda da mais famosa padeira de Portugal?

Começar em Marialva e acabar em Aljubarrota sem sair muito do local inicial. É este o poder da História guardada e bastante esquecida neste nosso Interior de Portugal.

Recuando 5 séculos

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