Restauro de Carenagens

Sabem os meus leitores que eu sou possuidor de uma mota velha. Desde 1994 que a Dirqwana circula pelas nossas estradas a fazer quem nela se senta imensamente feliz, passem os anos que passarem, e isso deve-se em parte a um design das suas carenagens que estava acima do seu tempo e que ainda hoje torce pescoços. Sou suspeito, é verdade, e tive a sorte de adquirir em 2018 a mota que eu queria na cor de que mais gosto, pese embora a condução descuidada que faço com ela.

Em parte motivado pela tal condução descuidada que faço na minha moto, fui aprendendo mais e melhores formas de cuidar dela, até porque ao ritmo com que preciso de a intervencionar facilmente passo a ser o melhor cliente de qualquer mecânico.

Assim, face à necessidade de lidar com uma carenagem lateral completamente rachada e já com um fragmento, fui estudando estratégias para colar a carenagem. Se inicialmente estudei a forma mais profissional e de melhor requinte estético, prontamente me lembrei do tal descuido com que a conduzo e concluí que a primeira intervenção seria apenas de correcção, ou seja, segurar as rachas e colar o fragmento para manter coberto o CDI da moto. Bonito nunca ia ficar!

Carenagens a pedir restauro.
Carenagem rachada e fragmentada

O restauro de carenagens pode ser dividido em 3 tipos, sendo que eu organizo-os por ordem crescente de dificuldade e qualidade do produto final.

1 – Soldadura sem reforço

A soldadura sem reforço requer pouco esforço. Perdoem-me o trocadilho pois foi mais forte que eu, tal é a facilidade que este tipo de restauro requer.

Para esta soldadura é apenas necessário um ferro de soldar. A potência do ferro é algo relativa, sendo que ferros mais potentes derretem mais facilmente o plástico (ideal em peças mais espessas) e ferros menos potentes exigem mais tempo de contacto com a peça para a derreter (ideal em peças mais finas ou de maior detalhe).

Início do restauro das carenagens.
Soldadura direita por linhas tortas

Este tipo de soldadura é o ideal para corrigir rachas e evitar que elas aumentem ou que causem mesmo a quebra da peça. Com o ferro quente, começar numa das pontas da racha, contactando o ferro com o plástico sem quebra até derreter e logo de seguida empurrar o plástico derretido para dentro da racha.

Pode ser feito em linha desde uma ponta à outra nas rachas mais finas ou então, para um maior reforço, ser feito em costura, ou seja, começar na lateral da racha e ir cruzando linhas de soldadura para criar uma maior área de plástico derretido e assim preencher rachas mais largas.

É importante fazer este tipo de trabalho numa área bem ventilada, uma vez que o plástico derretido deita um cheiro bastante tóxico. O uso de máscara é igualmente recomendado.

2 – Soldadura com reforço

O nome diz-nos o que vamos fazer. Neste tipo de soldadura vamos acrescentar um reforço à nossa peça para garantir que ela mantém a sua espessura ou diminui a sua probabilidade de quebra total. É um processo particularmente útil quando durante a soldadura passamos por um cruzamento de linhas de solda, ou seja, quando vamos soldar algo que já foi soldado ou então unir vários pontos de quebra.

Restauro parcial das carenagens. Feio, mas funcional
Reforço aplicado numa zona sensível, com um grande cruzamento de linhas de solda

Existem dois tipos de reforço: com o mesmo material ou com material de maior resistência. Notar que um material com maior resistência é tipicamente um material menos elástico. Exemplo: ferro.

a – Com o mesmo material

Existem vários tipos de plástico, sendo que cada peça tipicamente indica de que material é feita. No caso das motas, a grande maioria é feita de plástico ABS.

Plástico a utilizar para o reforço do restauro.
Tipos de plástico

Conhecendo o tipo de plástico importa comprar peças desse mesmo plástico. Elas vêm geralmente em forma de pau, e são algo difíceis de encontrar. Curiosamente, nos mercados oriundos da China torna-se mais fácil pesquisar por este material.

Depois de ter o plástico extra, só temos de o aplicar por cima da zona soldada ou a soldar e ir derretendo.

Este processo é útil para dar preenchimento em zonas onde falta plástico por excesso de soldadura ou por perda de um fragmento.

b – Com material diferente

Soldar e reforçar com material diferente visa dar alguma rigidez extra à peça. Se por um lado uma peça terá em teoria menor risco de quebra, por outro poderá partir de tal forma que se torna completamente irreparável. Nesse sentido importa escolher bem o material com que se reforça.

Um tipo de restauro, para carenagens ou outras peças.
Reforço com um clipe. Imagem de autoria desconhecida.

Em plástico de moto convém ter um material que seja algo maleável, para que ele consiga dobrar juntamente com a carenagem antes do ponto de quebra. Material que corresponde a esta descrição é por exemplo um clipe, disposto em “S” pela linha de solda, ou uma rede em aço, que foi o que utilizei no vídeo anexo. A criatividade manda!

Para aplicar o reforço deve-se desenhar a forma desejada e encostar ao plástico. De seguida, encostar o ferro de soldar no material de reforço e pressionar até o plástico por baixo derreter e engolir o reforço. Após a entrada do reforço no plástico, envolver aplicando o processo 1 da soldadura.

3 – Reconstrução

Este é o processo mais complexo, mas também o que produz um melhor produto final, caso o seu executante tenha realmente engenho na obra. No processo de reconstrução entramos no campo do artesanato e, se tudo correr bem, ganhamos um enorme sorriso de orelha a orelha, tal é o sentimento de realização pessoal. Pelo menos à primeira vez!

Restauro total de carenagens.
Produto final da reconstrução (autor: Vítor Francisco)

O processo de reconstrução permite-me introduzir uma nova dica referente ao plástico ABS: um material igualmente feito em plástico ABS é…o LEGO! Pessoas com filhos vão começar a olhar com outros olhos para o preço de um balde destas pecinhas maravilhosas que não só potenciam a criatividade das suas crianças como, quando deixadas ao abandono lá por casa, podem ser reutilizadas para reparar carenagens de motos! Criatividade a dobrar!

Ora, como não sei e por isso não ensino ninguém nestas páginas a executar de forma profissional, resta-me introduzir a reconstrução artesanal: Começa-se por imaginar uma caipirinha e colocar num saco algumas peças de lego. Logo de seguida, bater-lhes com um martelo até fazer pequenos fragmentos para tornar a sua dissolução mais fácil.

Numa taça com acetona industrial, aplicar gradualmente os fragmentos de plástico ABS e ir mexendo com ajuda de uma espátula ou mesmo (porque não?) uma colher de pau até obter uma solução espessa. Aconselho utilizar luvas durante todo este processo!

De seguida, na peça a reparar, criar um molde ou pelo menos colocar uma base em cartão e ir aplicando camadas da solução de plástico ABS como se de uma demão de tinta se tratasse.

Processo de reconstrução de carenagens.
Autor: Vítor Francisco

Finda a aplicação da solução e depois desta secar, resta apenas terminar a reconstrução lixando o excesso de solução e refazendo a linha original, com uma posterior aplicação de primário e pintura de toda a peça. Fica nova!

A primeira vez que eu tive contacto com esta reparação foi através do Vítor Francisco, no Fórum Africa Twin Portugal, a quem agradeço imenso aqui em nome de todos a disponibilização de um manual de instruções. As imagens disponibilizadas neste Processo 3 são da sua autoria.

Agora és tu!

Partilha comigo dicas adicionais. Terei todo o gosto em adicionar aqui com os devidos créditos. Envia-me fotos do produto final e, mais importante ainda, vamos andar todos de moto!

Fica um vídeo com a minha obra.

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