Choque

Este artigo é diferente dos outros nesta categoria, pois representa menos do que é uma Aventura, mas mais do que implica ir numa fora de estrada! Este artigo é uma confissão, um desabafo, um choque, enfim…é uma partilha, ou não estivéssemos num blog.

A pandemia Covid-19 veio trazer um período de desafio para a maioria de nós, de crise e inevitável mudança. Mudaram-se hábitos, rotinas, relacionamentos, mas não se mudaram os gostos. Pelo contrário, foram todos transformados em desejo nesta fase de desafio e de alguma forma postos em lista de espera no catálogo de afazeres para o retorno à normalidade. Assim o sinto.

A 14 de Março começou o meu isolamento forçado, por consequência do encerramento dos vários locais onde prestava serviços. De lá até então foram dois meses de reflexão, desilusão, prospecção, frustração, reinvenção, discussão e toda uma panóplia de tempestades emocionais quase a ponto de me colocar em situação de necessidade de apoio psicológico. Servem estas páginas de terapia.

Houve tempo para tudo, mas não sobrou tempo para nada. Caí num vazio legal que me retirou ordenado e me impediu de recorrer a apoios estatais, e por isso fui subsistindo com recurso a poupanças e à minha sempre incansável esposa que tratou de todos em casa. Deprimi, e por isso fui-me afogando no sofá ou na cadeira da secretária estrategicamente posicionada junto da janela com a melhor vista cá de casa. Magoei-me de forma terminal com a minha área de trabalho, e por isso trabalho finalmente para a minha imigração ao interior do país. Mas estou confinado.

Em depressão deixamos de ser a nossa própria prioridade. Tornamo-nos reféns de nós próprios e não conseguimos sair das amarras do nosso captor. Por isso mantive-me invulgarmente inactivo. Extremamente inactivo!

2 meses e 4 dias após o início do confinamento, finalmente desconfinei. Peguei na Dirqwana, juntei-me aos companheiros das duas rodas e ataquei o trilho. Ou assim o queria fazer…

Enquanto me segurava em cima das duas rodas.

Conduzir uma moto fora de estrada requer técnica e condição física para a manter, e se a moto pesar mais de 200kg então maior é essa necessidade! Se a isto juntarmos um terreno rico em areia e um dia solarengo a bater nos 30ºC, provavelmente a dificuldade técnica do passeio sobe e os condutores menos experientes são desaconselhados a participar, precisamente porque não conhecem a sua condição física ou a técnica necessária.

Eu já não sou um condutor inexperiente, por isso sabia que estava em baixo de forma. Ainda torci o nariz à areia, mas já só queria ir andar! Porém, não sabia quão em baixo de forma eu estava, até que temi.

Não andámos nem 10km e alcançámos a areia. Lá, fiz talvez 2km até que comecei a sentir cansaço. As pernas tremiam só de agachar em cima da moto, a respiração era cada vez mais difícil e breve, o corpo largava suor por todos os poros, a cabeça ia doendo como se estivesse a ser comprimida logo acima da testa, foi um choque! Nisto, deixo de aguentar as oscilações da moto e num qualquer banco de areia deixo-a cair. Foi a primeira queda, que prontamente disfarcei com um rápido levantar do chão, mas nem 2 metros depois já tinha caído de novo e desta vez precisei de maior descanso.

Foram quedas atrás de quedas separadas por poucas unidades de metros, com um cansaço crescente no corpo. Fui tentando continuar, mas todos temos o nosso ponto de ruptura. À enésima queda decidi que teria que abandonar os meus colegas e ir até casa, logo que alcançasse alcatrão. Parti uma manete de travão, mas mais frustrante foi sentir a incapacidade para levar avante uma actividade que adoro e pela qual ansiava. Preocupante foi fazer 30 minutos de alcatrão até casa em ritmo baixo e mesmo assim chegar cansado, com dores de cabeça e um aperto no peito.

Após nova queda, o Bruno decidiu documentar a minha exaustão.

Em época de Covid sentir que o hospital é o último sítio onde quero ir, que estou em baixo de forma, que o terreno é duro e que não quero levar o bicho para casa foram factores de ansiedade que se apoderaram de mim e do meu estado emocional. Não fui capaz de lhes resistir e por isso não desfrutei, ao invés baixei os níveis de confiança e acrescentei mais um factor de ansiedade para um regresso aos trilhos, que será breve, ainda assim.

Então, não serve este artigo para me lamentar. Tampouco serve para pedir compaixão ou pena, pois decerto são estes sentimentos capazes de me irar. Serve sim para sensibilizar: Todos passámos por um desafio, melhor sucedido para uns que para outros. Sejam prudentes e regressem à actividade de forma gradual, como se estivessem agora a dar os primeiros passos. Mexam-se e treinem, por vocês e pelo vosso prazer. Eu certamente voltarei a fazê-lo.

Sejam amigos de vós próprios, para estar em condições de o ser também para quem de vós precisa.

Tudo vai ficar bem, se todos nos ajudarmos a ser novamente o nosso melhor eu.

Regressaremos ao nosso melhor!

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