O Nosso Dakar 2020

Passou pouco mais de um ano desde a experiência gorada do Dakar Series, e tive finalmente a oportunidade de participar na jóia da coroa da Touratech PT: O Nosso Dakar.

É difícil não trazer expectativas para um evento destes quando ano após ano se multiplicam os relatos positivos de quem participou, ainda para mais porque este se tratava do segundo evento da marca em que eu participava e trazia um “trauma” do primeiro. Felizmente para mim as expectativas foram atingidas e possivelmente até ultrapassadas, e tudo pode ser lido aqui!

Um evento destes começa sempre bem antes do primeiro dia, quer para participantes quer, naturalmente, para organizadores. Desde a tomada de decisão de participar, os preparativos ganham forma nas redes sociais quando grupos organizados se formam para treinar ou para decidir quem partilha quarto com quem. Começa a escolha de equipamento, instala-se a dúvida quanto aos pneus a montar e o cúmulo do êxtase dá-se no dia 0, o da deslocação ao Algarve.

Dia 0 d’O Nosso Dakar.

A ansiedade é real, e torna-se bastante divertido observar de fora todo o reboliço criado em torno de um passeio de motos.

O Nosso Dakar é um passeio com características de percurso maioritariamente em fora de estrada, orientado para motas de tipologia Trail e Maxi-Trail. Nasceu como uma espécie de saudosismo da passagem da conhecida prova de Todo o Terreno – o Dakar – pelo nosso país e tinha como propósito passar por alguns dos troços por onde carros, motos e camiões correram para trepar posições na pontuação geral antes da entrada da corrida em território africano.

Todos os anos o percurso d’O Nosso Dakar muda, garantindo que os repetentes experimentam anualmente novos caminhos, novas vistas e novas sensações aos comandos das suas motos, porém algo que se tem mantido comum é a presença deste evento pelo coração das regiões do Algarve e Alentejo, de onde ninguém sai maltratado.

Sexta-feira, 10 de Janeiro, dia zero d’O Nosso Dakar 2020 e de viagem para o Algarve para a maioria dos participantes, eu tenho uma saída de casa tardia, pelas 16h. Tinha planeado sair um pouco mais cedo para conseguir chegar ao destino de dia ou, na pior das hipóteses, no cair da noite, mas os imprevistos surgem e quis o destino que parte da minha viagem fosse feita de noite. Perante essa certeza, optei por fazer uma paragem prolongada em Grândola, onde a Dirqwana mereceu uma foto “de guerra” e eu um abastecimento alimentar.

Paragem em Grândola

Na minha opinião, para quem segue por estrada nacional, o percurso rumo ao Algarve desde Lisboa é aborrecido do ponto de vista da condução, exceptuando algumas zonas antes de Alcácer do Sal e depois da Mimosa, e isso torna-se mais evidente se circular de noite! Para combater o aborrecimento, consegui distrair-me com música no intercomunicador e ainda com a constante luta contra o frio, que aumentava em intensidade a cada quilómetro, coincidente com o aumentar da escuridão na estrada. Ia vestido de forma descontraída, por isso senti cada metro como uma faca na minha direcção, tal era a força do frio contra a roupa.

As constantes paragens foram servindo de alívio para os dedos e músculos tensos e resfriados. Como eu invejava quem saiu de manhã cedo para viajar por fora de estrada até Vilamoura!

Perto da hora de jantar chego finalmente ao Vila Galé Ampalius, local de pernoita e bivouac deste Nosso Dakar. Aqui fiz o registo – no hotel e no evento – recebi o número de participante e ainda um saco com brindes gentilmente cedidos pela organização e seus patrocinadores: desde um livro catálogo da novíssima Africa Twin a um pacote de sal de Castro Marim, com direito ainda a uma T-shirt e garrafa térmica alusivos ao evento.

Foram brindes de muito bom gosto, e prova disso é o facto de lá em casa o sal ter sido logo guardado estrategicamente e a garrafa usurpada. Valeu-me tê-la usado durante todo o evento!

Tempo ainda para jantar, conviver, namorar algum material da loja móvel Touratech PT/Longitude 009 e preparar o dia seguinte! Autocolantes colados, mapa carregado, roupa pronta a vestir, mota abastecida…acho que posso ir dormir descansado.

No dia seguinte acordamos cedo para uma manhã fria. Tão fria que põe em causa a selecção de roupa a levar para as SS1 e SS2, ainda assim mantenho a decisão. Com direito a pequeno almoço de hotel, comendo até o que não apetece, o frio é ignorado e a esperança de que o dia aqueça cresce com a dilatação do estômago.

Seguimos para Castro Marim, onde a organização preparara uma área comum, devidamente marcada e fechada e também onde se concentraram as cerca de 400 motas participantes, ao som de música electrónica encarregue de fazer os níveis de energia aumentar. Houve briefing, com votos de alegria e saudável convivência dentro dos percursos, após o qual se deu o início do passeio.

A preocupação da organização para com a segurança de todos foi perfeitamente visível em vários momentos, desde logo pela garantia de que ninguém iniciava uma etapa sem a foto ao número de participante, que servia de confirmação acerca de quais motos estavam no percurso.

Eu, a Dirqwana e o nosso número.

Saímos para fora de estrada bastante perto do início da etapa e por isso a densidade de motos em simultâneo na mesma zona do percurso era grande. Fui ultrapassando algumas motos e sendo ultrapassado por outras até que o Guadiana finalmente se encarregou de separar um pouco melhor o pessoal.

O percurso atravessava muitas montanhas, e por isso proporcionava vistas fantásticas que por mais desafogadas fossem não me permitiam, ainda assim, identificar onde estava passados bons quilómetros. Confesso não ser bom conhecedor do interior Algarvio, porém graças a este evento tive oportunidade de passar por zonas fantásticas, para as quais desejo voltar um dia em passeio com menos motos.

Uma das várias vistas intermináveis proporcionadas.

Termina a SS1 no Azinhal, onde está a ser servido o almoço. Foi chegar, estacionar a moto, sentar numa mesa, pegar na refeição e desfrutar. Queria ser moderado na refeição, porque afinal de contas eu estava a pilotar uma moto pesada num terreno por vezes escorregadio, e por isso o esforço físico era uma realidade, mas não consegui. A fome juntou-se à vontade de comer e não evitei terminar a refeição de estômago cheio com aquela vontade sempre reconfortante de dormir uma sesta. Felizmente tinha muitas ganas de andar de moto!

À saída para o início da SS2 decido que vou circular num ritmo um pouco mais lento, pelo menos até fazer a digestão. Entro no trilho, faço uma curva, outra, e vejo uma BMW lá ao longe. É verdade que não estamos numa corrida, mas o ambiente criado é o de uma verdadeira prova que ainda por cima coincide propositadamente com o dia de descanso do Rally Dakar, que decorre este ano na Arábia Saudita. Como fã que sou, alimento-me de todos os vídeos que saem diariamente deste evento e sonho que também eu lá estou. Talvez estivesse a sonhar acordado, drogado pela insulina no meu corpo, pois lá fui por entre deslizes da roda traseira apanhar a BMW até a ultrapassar.

“Acordei” e disse para mim próprio que não ia cometer este erro. Não ia exceder-me das minhas reais capacidades, guiado pela minha crescente confiança. Voltei a marcar o meu ritmo, a divertir-me e a soltar amiúde a roda traseira pelas curvas deste novo trajecto, igualmente poderoso em vistas e poeira no ar, que inclusivamente me estragou algumas filmagens, pois não tenho a mesma sensibilidade para captar imagens que tenho para guardar memórias e as partilhar em palavras. Serve a consolação de que pelo menos vou tentando!

Companheiro pelo trilho.

Fiz a grande maioria do trajecto sozinho, mas a realidade é que nunca ninguém está realmente sozinho. O percurso está a ser percorrido por pelo menos 400 motos, por isso o apoio é garantido em caso de percalço. Não havia uma vez que eu parasse a moto e não me perguntassem se estava ok, ou se precisava de ajuda. Por esse motivo, não houve uma vez em que eu não fizesse o mesmo. Existe por isso uma falsa sensação de segurança que nos ilude e faz acreditar que os percursos estão fechados ao público e que podemos andar livremente, com algum descontrolo, pois não vão existir imprevistos. Garanto que não existe pensamento mais errado, não tivesse cruzado caminho com um camião no meio do trilho, ou com quatro indivíduos estrangeiros a caminhar.

Caricato foi quando no meio de uma serra, após bastantes curvas sem companhia, dou de caras com uma sempre vistosa Husqvarna 701 com kit Rally ligada e sem sinal de presença humana próxima. Abrando e olho em volta à procura de sinais do condutor, que do fundo de uma montanha consegue fazer-se ser visto por mim. Estava a ajudar o seu amigo, que sem querer conseguiu descer uma ribanceira com a sua icónica Yamaha XT500 sem cair nem se aleijar. Voltam os dois para cima, contam-me o sucedido e não consigo evitar: “Está visto que estas motos querem é mato” – contei, em jeito de piada. Seguimos.

Ainda na SS2, num de vários momentos em que eu e outros participantes interpretamos mal o GPS e seguimos o caminho errado, reentro no percurso acompanhado por um companheiro que conduzia sem GPS na sua XRV750 Africa Twin, personalizada pela Maria Riding Company, que segue comigo primeiramente até eu ficar sem bateria no telemóvel – que corria a aplicação de GPS – e depois até ao fim da etapa que estava logo ali, 5km depois da nossa paragem devidamente acompanhada por três companheiros que seguimos depois da morte prematura do meu dispositivo móvel.

Eu estava feliz. Profundamente feliz no final da SS2 e fiz questão de o mostrar através de um largo sorriso que me atravessava a cara desde uma orelha até a outra, pois fui capaz de concluir o dia de sábado sem percalços, diverti-me bastante com o ritmo que imprimi e ainda fui deslumbrado por cada vista interminável que o Algarve me proporcionou, na forma do percurso d’O Nosso Dakar.

Sorriso largo no final da etapa.

Na falta de percalços garanti uma peripécia neste dia, uma vez que na estação de serviço de Quarteira, a caminho do hotel, atestei a Dirqwana após pedido na caixa para me libertarem a bomba e quando fui a pagar, lamentavelmente, não encontrei a carteira. Eu sou uma pessoa organizada, que sabe sempre onde tem as suas coisas, e naquele momento suspeitei que me esqueci da carteira no hotel (apesar de ter uma ligeira lembrança de a ter posto na mochila) ou que a perdi algures pelo caminho. Ao ver a minha dificuldade, um outro participante prontamente acedeu pagar a minha despesa, que imediatamente retribuí graças à sempre prática aplicação MBway, pelo meu ressuscitado telemóvel. Acontece que a carteira descansava escondida no fundo da mochila, embrulhada pelas dobras da própria mochila. Só me deu para rir.

No hotel existiam dois horários para jantar: um às 19h e outro às 21h. Calhei no segundo horário e se há pior coisa que me pode acontecer é ter fome. Eu sou a verdadeira diva quando tenho fome e transformo completamente a minha interação social quando neste estado. Para evitar males sociais dirigi-me ao Mcdonald’s ali tão perto e lanchei. Podia ter ido a outro lado, mas estava com desejos e a minha condição de esfomeado não me permitiu raciocinar de outra forma. Diva.

Novamente com tudo a que tenho direito, saio do restaurante do hotel de estômago cheio. Pelo menos desta vez posso ir directo para a cama com o sono pós-refeição, mas não sem antes ouvir o briefing para a SS3. A promessa é a de que o dia de domingo é um dia rápido, como acontece ano após ano em cada edição deste evento. Mal posso esperar!

A partida da SS3 dá-se na Foz do Ribeiro, num espaço onde começa um trilho com largura suficiente para talvez 10 motos lado a lado e se é um facto que as opiniões serão sempre algo subjectivo e incensurável, então dou a minha com impenitência: foi o meu dia preferido!

O contraste foi total entre o trilho na zona do Algarve e posteriormente na zona do Alentejo. Começámos com montanha, subidas, descidas, curvas e vistas para depois, já no Alentejo, transferir gradualmente o percurso para rectas intermináveis, ladeadas de planície e agricultura. Foi de certa forma transtornante ter capacidade para acelerar para lá dos 120 quilómetros por hora em caminhos sem alcatrão, que só um percurso com este tipo de desenho permite. A dado momento tive de parar para beber água, limpar os óculos e deixar o ritmo cardíaco baixar um pouco, pois já tinha feito cerca de 70 quilómetros e não sabia o que era baixar para uma terceira mudança.

Paisagem Alentejana.

Quando retomei o percurso, na zona de Ourique, entrei numa nova fase deste dia: a fase das cores, do silêncio (possível) e do povo que saiu à rua como se estivesse a assistir a uma verdadeira prova de todo o terreno, pois gritavam, batiam palmas e ainda auxiliavam na leitura do GPS ao apontar para onde foram todos os anteriores participantes que por ali passaram! Foi fantástico sentir o carinho de quem abdicou um pouco do seu descanso para assistir à diversão de todos nós que pagámos para esboçar um sorriso aos comandos das nossas motos. Estava a ser um dia em cheio!

Prossegui trilho fora até chegar ao local do almoço: o Armazém Central, nas Minas do Lousal. Aqui tive tempo para umas fotos, apreciar a mina e conviver um pouco enquanto aguardava a chegada de amigos para iniciar a refeição que acabou mesmo por ser o ponto menos positivo deste excelente dia. Das várias fotos que tirei, uma foi parar às histórias do Instagram e imediatamente recebi a recomendação de que o restaurante é muito bom, juntamente com alguns pratos de sugestão que prontamente me deixaram a salivar. A questão é que este era um evento para 400 pessoas e o restaurante teve de se reorganizar para acolher tanta gente. Dispôs tachos de feijoada por pontos estratégicos do espaço, juntamente com arroz doce e sumos, bem como talheres e pão.

À descoberta da Mina.

Não fosse o facto de eu não ser de todo um apreciador de feijoada e a refeição teria caído no meu estômago como a verdadeira cereja no topo do bolo de que precisava, mas infelizmente não consegui ultrapassar totalmente este meu desprazer. Apesar de tudo, todos quantos apreciavam a iguaria foram unânimes em destacar o sabor excelente do prato. Espero um dia voltar a este restaurante noutras circunstâncias, pois o que ouvi antes da refeição e li depois prometem uma experiência totalmente diferente.

Antes da partida e do final oficial d’O Nosso Dakar, tempo ainda para umas fotos, bem como para um fugaz reparo nas duas viaturas médicas pertencentes à organização que aguardavam também pelo final da SS3 e pela chegada do último participante no percurso. Foi um bom sinal ter dado pelas viaturas apenas no final, pois fiz tudo sem percalços. Na verdade, foi a primeira vez que saí para andar de moto fora de estrada e não deixei a moto tombar uma única vez! Pode ser um indicador de que o percurso era totalmente ajustado para Maxi-Trail, ou de que estou a ganhar experiência suficiente para prever imprevistos. Quiçá ambos.

A foto final do evento.

Como balanço, deixo a ressalva de que este evento é de facto extremamente bem organizado. Foi tudo pensado ao pormenor: desde o conforto dos participantes às comodidades, passando e garantindo a sempre essencial segurança para todos, ainda que relativa, ou não estivéssemos a falar de condução fora de estrada.

Se me perguntarem, este evento é por mim recomendado. Há melhor maneira de iniciar um novo ano?

One thought on “O Nosso Dakar 2020”

  1. Que rico texto!! Continuo na minha…compile e edite um Livro. Belas fotos, belo video e escrita perfeita! Que mais quer?

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