Madeiro 2019

Este foi mais um ano em que tirei férias no mês de Dezembro porém, ao contrário de 2018, desta vez não o fiz para tratar do Olival e colher a azeitona. Desta vez, graças ao casamento, tive alguns dias extra de férias e pude terminar o ano com duas semanas e meia de puro descanso e reencontro pessoal, também porque a vida agrícola não é totalmente compatível com uma vida laboral na cidade – dependente de horários e agilização de ausências – e não só a azeitona maturou antes das minhas férias, como também a semana que passei no Vale da Senhora da Póvoa teve como principal protagonista a depressão Elsa, que comprometeu o país por inteiro.

Não foi no entanto a Elsa capaz de deprimir as minhas férias, tampouco de me impedir de descobrir, conhecer e aqui partilhar os costumes da Beira – O Madeiro.

Madeiro de Penamacor antes de ser Acendido.
Madeiro de Penamacor

O Madeiro é uma tradição bem vincada no município de Penamacor, mas não exclusiva daqui. É uma grande fogueira instalada no centro da aldeia ou junto à igreja, acendida na noite de 24 de Dezembro (excepção feita à Vila de Penamacor, onde este ritual é já um fenómeno turístico por representar o maior Madeiro de Portugal) e cuja origem, ou causa, varia conforme a boca que conta a história: desde a causa mais religiosa à causa mais social, contam várias vozes do povo que a fogueira serve para aquecer o menino Jesus, representado na Missa do Galo; outras que a fogueira tem como principal razão proporcionar aos mais pobres do povo a oportunidade de acesso a uma fonte de aquecimento nesta noite de comunhão. A fogueira deve proporcionar aquecimento pelo menos até à noite de passagem de ano, porque nunca apaga ou porque tem lenha quanto baste para acender todas as noites.

Este ano fiz questão de estar presente na apanha do Madeiro, que é como quem diz a recolha dos troncos para compor a fogueira. Este é um processo que, no município de Penamacor, acontece sempre ao dia 8 de Dezembro. No caso do Vale da Senhora da Póvoa, por causa da baixa densidade populacional, vão homens variados a convite do presidente da Junta de Freguesia, mais experientes ou com menos hábito nestas andanças, desde que maiores de idade, ao contrário de Penamacor que junta sempre a fornada de jovens em idade militar desse ano.

Juntámos, eu e a Marta, dois casais amigos que vieram connosco passar o fim de semana para que pudéssemos unir o útil com o agradável. Assim, dedicámos o dia de sábado a turistar em conjunto, para que no domingo eu pegasse no Frederico e fôssemos à vida rural. Ele gostou e eu também!

Confraternização

Eram 7h da manhã e já nós estávamos a chegar ao largo das festas para o ponto de encontro. Estava frio e como seria de esperar faltavam chegar pessoas, mas os presentes já estavam a preparar as mesas e o farnel para o pequeno almoço. Havia de tudo a que tínhamos direito nesta manhã, inclusivamente duas caixas de vinho, não fosse alguém acordar em extremo estado de desidratação. Comemos, arrumámos e logo nos juntámos a quem nos desse boleia para iniciar o dia de trabalho.

O grupo era grande e o estado geral era o de amena cavaqueira. Contam-me os mais experientes que actualmente este dia gira essencialmente à volta da confraternização e da paródia, pois o trabalho pesado é totalmente feito pelas máquinas. Tínhamos ao nosso dispor quatro tractores e dois atrelados, bem como duas moto-serras e ainda duas ou três carrinhas de caixa aberta para o que desse e viesse.

Os cortes iniciam-se nas árvores cedidas pelos donos dos terrenos que vêem nelas um empecilho, mas o ânimo ganho ao longo do dia leva sempre a que uma ou outra que “não nos pertence” seja também cortada, porque está seca ou pura e simplesmente porque nos apareceu no caminho. A tradição original do Madeiro era fazer-se o corte destas árvores à noite, roubando a lenha necessária para o lume, totalmente à mão com serras e a parar o trânsito que pudesse circular. Eram outros tempos de heresia, mas também de fortes laços para com o contrabando que vivia a bom pulso nas regiões fronteiriças. Vive por isso ainda uma pequena rebeldia em todos os locais neste dia.

Corte da árvore, com recurso a moto-serra e tractor para direccionar a queda.

Deveríamos ser capazes de terminar até às 15h para assar um borrego que desse para deixar todos almoçados, porém fomo-nos atrasando até eu não ter mais hipótese de continuar este dia com os homens. É que à minha espera estava ainda uma viagem de três horas de regresso a Lisboa e um dia de trabalho a iniciar às 7h da manhã de segunda. Despedi-me, mas não me livrei da pirraça de todos naquela tarde, nem do natural “O borrego estava mesmo bom!” na semana seguinte, à medida que me foram vendo.

Um tractor com o atrelado carregado de madeiros.

Voltei para Lisboa para trabalhar uma semana e, ao dia 15, finalmente iniciar as minhas férias e seguir de regresso ao Vale da Senhora da Póvoa. Vim com o objectivo de passar pela primeira vez o Natal nesta aldeia e de conhecer a fundo a tradição do Madeiro, mas também de aproveitar efectivamente as férias e revigorar, por isso trouxe a Dirqwana comigo!

Não planeei nada mais para além da mala de viagem que levei presa na mota, por isso limitei-me a inserir o destino no Google Maps, seleccionar a opção “Evitar Portagens” e seguir caminho. A meteorologia prometia chuva, por isso achei por bem vestir o impermeável, não fosse a água cair em imensa quantidade. Segui rumo à ponte Vasco da Gama e posteriormente a Coruche, sempre seco, tão seco que senti necessidade de celebrar a sorte com uma Bifana XL na Azervadinha.

Bifana XL

Ao longo da viagem recordo cada vez melhor que estou a fazer exactamente o mesmo caminho que fiz quando fui ver a Baja Portalegre, por isso sou novamente pejado na barragem de Montargil, quando dou de caras com uma albufeira cada vez mais vazia, mais ainda que na altura da Baja, para desgosto meu. Zonas da albufeira de Montargil onde já desenvolvi actividades de Desporto e Turismo de Aventura estão vazias, e eu penso naqueles que lamentam as chuvas prometidas para estes dias. Água é vida, logo a falta dela nunca poderá ser algo positivo, especialmente onde ela sempre abundou. Assim penso.

Paradoxalmente, esta preocupação deu-me um novo sorriso na cara. A chuva caiu – e com força – desde Vila Velha de Ródão até Castelo Branco. Eu estava a pedi-la.

Já no Vale da Senhora da Póvoa, a véspera da chegada da depressão Elsa presenteou o povo com um reluzente dia de Sol e eu, como que movido a energia solar, ganhei uma ansiedade e inquietação que só se satisfizeram assim que peguei na mota e a levei por maus bons caminhos sem rumo, até que não mais sobrasse energia em mim.

Bons caminhos

Silêncio, foi o que tive oportunidade de ouvir, finalmente, quando levei a mota por trilhos à volta da barragem do Meimão e um caminho cortado pela água me fez olhar bem em volta e desligar a mota. Contemplar o horizonte rico em floresta e água, a ausência de pessoas, o vento a soprar por entre as copas das árvores e o som da minha própria respiração. Um menino da cidade tem muito poucas oportunidades para conhecer o silêncio, que nem o sossego da noite consegue replicar. Abençoado sou.

Retomo caminho, até que a falta de rumo me leve à sempre desafiante Serra d’Opa, que guarda tantos mistérios quanta vista proporciona, graças a um horizonte a 360º ladeado pelas várias Serras que abraçam este Vale, o da Senhora da Póvoa.

A vista

É véspera de Natal e chega finalmente o dia de acender o Madeiro! No dia anterior o sono falou mais alto e não fui ver o acender do Madeiro de Penamacor, que tinha início à meia noite e, soube depois, só foi efectivamente ateado uma hora depois. A humidade era alta, afinal choveu a semana toda, e até a melhor madeira ensopa. Eu queria saber a que horas acendiam o Madeiro do Vale, porém na aldeia nunca há bem um horário fixo para nada excepto para as horas relativas ao trabalho: início às 7h, pausa para almoço às 12h e fim às 17h. Invariavelmente.

Madeiro do Vale da Senhora da Póvoa
Madeiro

Uma tarde de convívio no café levou os jovens da aldeia até ao Madeiro, posta que ficou a noite, e deu-se o ateio. Cheguei tarde, foi um facto, mas ainda a tempo de me aquecer um pouco e desfrutar. Faltava pouco para a ceia de Natal e o aquecimento não durou muito, mas a promessa era a de regressar, claro!

A seguir ao jantar o povo vai-se deslocando em levas rumo ao Madeiro, mas a surpresa para mim vem quando chego, permaneço e noto que alguns grupos vêem o fogo e vão embora, ficando apenas um pequeno número de pessoas junto à fogueira que se revelou ser o mesmo até ser tarde, muito tarde. Pensei que fosse tradição na aldeia todo o povo reunir lá, cantar e fraternizar, e de facto deveria ser, assim me contaram os antigos que foram aparecendo, mas o interior não sofre só de deserção. No interior o envelhecimento da população leva a que cada vez mais pessoas optem por permanecer no conforto das suas casas, hoje em dia equipadas com ar condicionado ou aquecimento central, para além das lareiras. No Interior até as grandes coisas se vão perdendo.

Madeiro de Penamacor
Madeiro de Penamacor, ao dia 26 de Dezembro

Ao dia 26 chega o momento de partir de regresso a Lisboa, pela mesma via que segui na vinda. Desta vez presenteado pelo sol, não deixo de ser surpreendido por um majestoso nevoeiro desde os arredores de Vila Velha de Ródão até à imponente barragem do Fratel, que segura o triste Tejo. Outros textos…

Torno a passar pela barragem de Montargil, desta vez com o nível da água bem acima do que eu tinha visto antes! Não resisti e entrei naquele parque de diversões Todo o Terreno, para relaxar junto à água, queimar um pouco mais de borracha nos pneus e molhar os pés nas novas poças de água sobre os trilhos.

Água é vida!

Barragem de Montargil

2 thoughts on “Madeiro 2019”

  1. Já inseri o meu comentário, na altura produzido, mas não tenho acesso ao mesmo nem a outros que, porventura, relativamente a esta entusiasmante crónica, tenham eventualmente sido expendidos.
    José Nunes

    1. Olá José! De facto não tive notificação de qualquer comentário para além deste. Pode ter sido erro de alguma das partes mas pelo menos este ficou! Obrigado!

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