Casamento

Este vai ser longo. Talvez o mais longo. Tão longo quanto o resto das nossas vidas – o Casamento.

A 17 de Agosto de 2019 casei, e algo que eu e a Marta temos em comum é a Alma velha. Ambos acreditamos que o casamento é para a vida, que as palavras que lemos no altar são para manter. Acreditamos que temos realmente Amor genuíno a unir-nos e que a nossa família nunca será disruptiva, moderna, disforme, caótica.

Acreditar leva-nos a comunicar, a superar, a unir e caminhar por um bem comum: a nossa felicidade. Fracassar é algo que me assombra a mente e, a meu ver, ainda bem! Tudo farei para nunca fracassar neste casamento e não falhar para com a minha palavra, que dei numa igreja perante a imagem divina segundo a religião católica e tantas testemunhas que não me deixam mentir acerca da felicidade genuína que eu transpirava neste dia.

Planeamento

Fiz o pedido de casamento à Marta de forma tradicional: joelho no chão e anel guardado no bolso. Um dia que fiz questão de ser à minha imagem, porém memorável para ela, planeado à exaustão e do qual surgiu uma primeira ansiedade: a escolha da data! Um processo que foi de célere resolução, não fosse o dia do nosso aniversário de namoro um conveniente sábado de Agosto. Na continuação das importantes e imediatas decisões, cedo concordámos que o casamento seria na aldeia que recebeu a Marta em inúmeras férias lectivas e onde ambos queremos passar cada vez mais tempo! O Vale da Senhora da Póvoa foi local de vida dos seus avós: pilares da sua existência e a quem a cerimónia serviria de homenagem.

Nos preparativos vamos limando detalhes como o local do copo d’água, o que levar vestido ou o que comer. Para nos ajudar contratamos a Tânia que foi uma verdadeira executante das nossas ideias…ou das da Marta, já que eu não resisti à força misteriosa que tende a afastar os cônjuges masculinos dos pormenores logísticos que um casamento envolve.

A minha noiva sempre foi peremptória no que ao local dizia respeito: ela gosta pouco da ideia padronizada das quintas de casamento, pelos clichés que as caracterizam, pela liberdade limitada que proporcionam relativamente às escolhas e, não menos importante, pelo preço com o qual fomos confrontados em cada quinta à qual pedimos orçamentos. Assim, a busca por um local terminou num local improvável: A Quinta do Panasco, um turismo rural com experiência em receber pequenos eventos, mas nunca um casamento! Seguiram-se a esta escolha outras como o fornecedor de mobília, de som, de luz, enfim…foi um evento pensado e criado de raiz, sem estrutura ou logística já preparada para o que se criou. A minha mulher devia trabalhar como organizadora de eventos!

Por estarmos a casar e a celebrar na Beira Baixa tivemos realmente dificuldade em encontrar prestadores de serviços. Deparámo-nos com a falta de oferta e valores proibitivos para entregas a partir de Lisboa, especialmente quando falamos de comida. Foi então num dia de raciocínio e divagação que nos ocorreu um local até então esquecido, para lapso nosso: A Casa da Esquila. Um restaurante sempre cheio numa zona de progressiva deserção, habituado a servir em quantidade e qualidade, na pessoa do Chef Rui. Foram eles os responsáveis por toda a comida e ainda por nos encontrar o fornecedor para o Bolo. Uma feliz escolha!

No que toca a decoração, entregámos o serviço de florista à Anabela Augusto que, sendo amiga da família e da Terra, fez tudo por garantir uma correcta disponibilidade e disposição das flores pretendidas por entre a igreja e a Quinta do Panasco. O belíssimo bouquet da Marta foi também sua obra!

Por último, há a destacar o serviço que para nós nunca seria de dúvida: a Fotografia. Conhecido destas páginas, o Bruno Barata trouxe a sua equipa para imortalizar o nosso dia em formato físico e nos lembrar para sempre do quão especial este foi.

Preparação

A data aproxima-se e cresce o nervoso miudinho. Temos os respectivos trajes e acessórios comprados e prontos a vestir, os serviços escolhidos e sinalizados e os convidados todos distribuídos por alojamentos temporários (vicissitudes de casar longe do local de residência). A Marta vai para o Vale da Senhora da Póvoa primeiro para ultimar todos os detalhes, enquanto que eu vou dias mais tarde com o seu pai numa carrinha emprestada para carregar toda a mobília alugada desde Mafra até à Quinta do Panasco. A vontade era muita, o engenho também, porém a quantidade de mesas, cadeiras e loiças superava em larga escala a nossa capacidade de carga, pelo que tivemos que fazer uma viagem extra no dia seguinte. Estávamos em plena greve de combustíveis!

A peripécia inicial deixou antever que um evento como este será sempre banhado por imprevistos, felizmente despercebidos aos olhos dos convidados, como foi o caso da montagem das luzes de arraial que iluminaram todo o nosso espaço, na noite cerrada da nossa festa. É que nós pedimos a montagem para uma determinada disposição no espaço que não seria mais viável pois, aquando da montagem das mesas e cadeiras, apercebemo-nos de que o terreno era demasiado instável e o risco de queda acrescido pela quantidade de aspersores de rega que ficariam visíveis no espaço circulante. Este imprevisto levou-nos a pedir – e suplicar, importa referir – para que a Izifun viesse de alguma forma corrigir a anterior montagem ou fazer uma nova, para que a nossa festa pudesse realmente acontecer sem escuridão.

Felizmente existiu sensibilidade de parte a parte no que tocou a todos os imprevistos para fazer cedências e esforços físicos acrescidos, como foi o caso da nova distribuição de pessoas pelas mesas, que eu e a Marta ficámos a fazer até às 4h da manhã, na noite antes do Sim. Para cumprir com a tradição, ainda me desloquei até Belmonte nessa noite para dormir na casa que a minha mãe alugara para ficar. Foram horas de sono que em nada me ficaram a faltar, pois acordei de forma natural às 9h e nunca senti vontade de voltar à cama durante todo o dia, até ao final da nossa festa. Chamemos-lhe ansiedade!

Quis o destino que as peripécias não tivessem um fim na véspera do casamento, mas que se prolongassem até mesmo ao momento de chegada ao altar! Para mim, tal como para os convidados, foi impossível notar que o vestido da noiva tinha cravado nele um apontamento que não deveria estar lá. Um gancho dourado que inicialmente estaria destinado a ir no cabelo da Marta veio afinal cravado num buraco criado pelo ferro de vapor e a demasiada proximidade que o vento criou entre este e o vestido. Foi tão bem reparado que mereceu elogios, não pela resolução do problema, mas pela beleza estética do vestido. Eram evidentes os comentários: “Que giro aquele apontamento dourado no vestido”. Que orgulho na minha mulher!

De facto a Marta cria nas pessoas à sua volta uma aura positiva, de alegria e amizade permanentes, que fez merecer um mimo capaz de orgulhar qualquer mulher: As mulheres da aldeia juntaram-se para lhe cantar uma serenata, à porta de casa. Foi um mimo lindo, como a pessoa que entrou para se sentar ao meu lado, na igreja. Assim aceito que lhe manchem a maquilhagem!

Cerimónia

Eu, a minha mãe e a minha irmã Raquel somos os primeiros a chegar e não tardam a aparecer os primeiros convidados, bem como os curiosos da aldeia. Neste processo estou a dar o melhor de mim para receber toda a gente – ultrapassando em larga escala os meus fracos dotes de anfitrião – e reajo com natural gozo e estupefacção quando desconhecidos me perguntam, à porta da igreja, a que horas seria o casamento e se a noiva demoraria muito a chegar. Eu pelo menos estava esperançado que ela viesse em breve, mas pelo sim pelo não recomendei que esperassem sentados no interior da igreja.

A localização geográfica da igreja, no centro da aldeia, permite uma autêntica romaria dos convidados desde a casa dos avós da Marta (onde ela se vestiu e preparou) até ao nosso encontro e é nesse momento que me mandam entrar porque, felizmente, a noiva está a vir! Se antes eu estava ansioso, neste momento o meu corpo era todo um terremoto de nervos e expectativa. As pessoas brincam comigo, mas eu confesso que neste momento já não ouço nem reajo. Neste momento estou em visão túnel para a porta e é com relutância que me viro de costas para o local de entrada da protagonista da ansiedade. Porém não estaria muito tempo, naturalmente.

O momento da entrada da Marta na igreja é para mim um momento de explosão de felicidade e orgulho, bem como um progressivo aliviar de tensão e ansiedade à medida que ela se aproxima de mim. As pessoas fazem a festa, os elogios soam, o ruído é enorme e eu seguro-me com todas as minhas forças para não deixar toda a minha emoção escorrer cara abaixo. Ela chega perto de mim, damos um abraço e solto o meu elogio, que se mistura com o seu entusiasmo para me contar do acidente do vestido. É curioso como todas as pessoas subitamente desaparecem quando ela chega ao meu lado, como deixo de ouvir e de ver, inclusivé ao padre, que nos manda benzer e a quem eu sem querer desrespeito, ao falhar na bênção. É que eu não sou um católico praticante e não sei quando nem como fazer as coisas e, quando de repente toda a gente se benze, fico confuso e tento fazer algo à pressa, mas sai algo que acaba por não ser nada. Julgo que o padre não levou a mal, até porque já tínhamos falado com ele previamente sobre a nossa visão acerca da igreja.

As cerimónias de casamento actuais não são como as de antigamente. Ou pelo menos como as de que me lembro, e nesse aspecto tanto eu como a Marta temos receio de estar a fazer confusão com os filmes. Na nossa cerimónia aconteceu o mesmo que tínhamos visto já noutras cerimónias a que assistimos: o padre não mandou beijar no fim! Chegámos ao fim confusos, sem saber o que fazer, e por isso o momento passou algo despercebido. Felizmente temos mais oportunidades para mostrar beijos apaixonados aos convidados!

A cerimónia termina e levamos as testemunhas para assinar o contrato. É aqui que consumamos realmente o casamento, em cinco minutos. Fazemos o compasso de espera para as fotografias no interior da igreja e vamos gradualmente caminhando em direção à saída, foto ante foto. Tínhamo-nos certificado de que eram distribuídas pétalas pelos convidados presentes na saída porque não gostamos do uso de arroz tradicional. Descemos o primeiro lance de escadas sob pétalas, mas realmente sentimos que falta emoção neste momento e que este é um clichê. Felizmente a Marta tem primos agricultores com acesso a sacos de 1kg de arroz que podem facilmente dispensar em cima de nós, e fazem-no precisamente no momento em que nos passa tudo pela cabeça. Arroz é só mais um ingrediente a passar.

Copo d’Água

Após os habituais cumprimentos, as pessoas começam a dispersar rumo à Quinta do Panasco. Eu e a Marta ficamos com o meu cunhado – agora oficial – que nos levaria até junto dos convidados, já devidamente alimentados com aquilo que a beira (e a Casa da Esquila) têm de melhor para oferecer, bem como com os primos do arroz que nos ajudam a hidratar e a fazer tempo para sermos os últimos a chegar.

A ida é um verdadeiro momento de descompressão. É o silêncio depois da agitação e do reboliço de emoções, é o partilhar das experiências passadas em separado até nos reencontrarmos no altar, é o riso e diversão pelas peripécias e por já sermos, no papel, todos família.

Eu sempre disse que seria aquele noivo que chegaria à quinta e não teria rodeios, que iria comer à vontade por mais que as pessoas me procurassem, mesmo que tivesse que as “despachar”. A verdade é que a emoção toma conta do estômago, pois sou o anfitrião de uma festa enorme, pensada para alegria e conforto de todos, por isso vou comendo sim, de forma tímida, enquanto garanto que ninguém fica sem um pouco da minha atenção. O calor ajuda, dando mais sede que apetite para esta tarefa nada ao meu jeito.

A meio do cocktail o Bruno tentou pegar em mim e na Marta, cada um no seu ponto de convívio, para nos levar até a uma zona estudada por ele para fazer fotos de abrir a boca aos demais, porém debateu-se com este nosso compromisso com o entretenimento e por isso perdemos a oportunidade de tirar fotos com a presença do sol. Felizmente que a sua ausência demora a levar consigo a luz e somos presenteados com excelentes fotos, em homenagem ao local de onde se lêem estas palavras. As fotos são tiradas em Terra, Rocha e Alcatrão.

Terra
Rocha
Alcatrão

Regressamos à quinta de noite para nos reencontrar com todos, que já estranhavam a nossa ausência! O ambiente está bom, as pessoas divertidas e o jantar prestes a começar. Eu e a Marta somos cúmplices até para com o nosso dever enquanto anfitriões e somos espontâneos no momento de levantar da mesa, após cada serviço, para falar com todos os nossos convidados.

Neste momento já sentimos o dever cumprido. Estamos genuinamente a divertir-nos e a ser nós. A festa está a ser um sucesso e tem como único inimigo um frio crescente que preenche os nossos convidados mais imóveis, para o qual nos preparámos com a dispensa de 6 mantas a pensar nos idosos…claramente insuficientes. Partimos o bolo, somos surpreendidos com um vídeo e abrimos a pista. Daqui em diante a memória foi diversão, com direito a concurso de dança que presenteou o casal vencedor com uma noite na Quinta do Panasco. Como não dar tudo?

Às 5h30m preparamos o fim da festa com Missão totalmente cumprida. Estamos felizes, e assim pretendemos ser para sempre.

6 thoughts on “Casamento”

  1. Fantástico relato de um casamento muito especial. Para nós, Quinta do Panasco, foi um prazer enorme acolher a festa. Estava tudo perfeito: a originalidade das mesas, a simplicidade do belo vestido de noiva, os arranjos de flores campestres, os suportes (janelas) com a distribuição dos convidados, enfim…; , os noivos, então, pessoas adoráveis!…
    Voltem sempre. Serão muito bem vindos.
    Desejamos toda a felicidade do mundo ao jovem casal.
    Maria Guia Pimpão

  2. Gostei de ler as belas frases do noivo…gostei de ver a minha aldeia e conterrâneos …gostei de todas as fotos maravilhosas…gostei da quinta do Panasco, só me resta desejar as maiores felicidades aos noivos, que sejam felizes para toda a vida.

  3. Tenho um orgulho enorme de ti filho e gosto muito da nora que me destes. Que a vossa felicidade seja eterna, que esses valores sejam para a vida e que tenham toda a sorte do mundo porque vocês merecem. I love you all

  4. Que linda e bela discrição do vosso enlace. Não vos conheço pessoalmente, mas tenho lindas e boas recordações da familia da Marta.Deus proteja o vosso lar e que sejais felizes para sempre.

  5. O ser humano é uma super produção da Natureza, ou melhor, do Criador. No final da obra, Ele não poderá deixar de ter ficado satisfeito com a Sua criação. E, como graça suprema, Ele não Se ficou por menos: Enviou o Seu Filho às criaturas criadas para desse por elas a Sua própria vida, assim lhes assegurando o caminho e os meios de felicidade e de salvação eternas.
    O gestor deste blogue e a sua Marta souberam, decerto, merecer o sopro de felicidade que os visitou e o dia irrepetível que lhes foi dado viver, na esteira de outros anteriores, igualmente felizes, como aqueles que ele nos tem narrado nas suas cativantes crónicas, e daqueles que, “add aeternum”, o Bom Pai, a partir do momento do matrimónio, lhes reservou, porque convictamente conhecedor e ciente da grandeza de coração e de alma do casal.
    São de facto momentos da vida que jamais esquecem. Já com mais 50 anos de casamento, falo por experiência própria.
    Também o Criador, que, lá do alto juntamente com o celebrante, terá abençoado o projecto a dois por vós selado, terá exultado de alegria porque Ele alegra-se com a alegria do Seu povo.
    Que Ele nunca vos falte. Que vós nunca lhe falteis.
    Desfrutarem a felicidade a dois é um imperativo que vos assiste. Façam, pois, o favor de serem felizes.
    PARABÉNS!

  6. Bem, depois de toda a emoção vivida naquele memorável dia, pouco me resta escrever! Revivo com toda a emoção do dia, as palavras aqui escritas…sei que tem um talento nato para a “boa escrita”, mas sei tb que apesar de se acharem “Almas Velhas”, a vossa maneira de estar e de pensar fazem qualquer um tremer de felicidade! Não sei se é só AMOR, sei que entre vós há uma grande CUMPLICIDADE e RESPEITO, e isso para mim é fundamental! O AMOR vai-se construindo, a FELICIDADE tb, mas acompanhar esta vossa caminhada é tranquilizante para mim…Coisas de “velha” eu sei mas ADORO-VOS! Façam da vossa vida o que melhor sabem fazer – AMEM-SE!!!

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