Baja Portalegre 500 – O sonho

Em menino tudo o que eu sonhava era relativo a Rallys. Sonhava fazer 18 anos e tirar carta de carro; sonhava pilotar por essas estradas fora, com a traseira do carro sempre na diagonal e ocasionalmente sem rodas no chão. Eu queria correr e pensava que quando fosse maior de idade finalmente ia conseguir esse objetivo! Naturalmente que a idade trouxe conhecimento e o banho de realidade fez-me compreender que esse sonho dificilmente se tornaria uma verdade absoluta. Eu não teria mais hipóteses de me tornar um piloto Rally, de fazer o circuito WRC aos comandos de um Subaru Impreza nem de deslizar pelas curvas com uma plateia de corajosos aventureiros que se colocam estrategicamente nos melhores locais para me verem passar e apoiar!

Cresci, e curiosamente até passei a gostar menos de carros. Tirei carta de moto por necessidade e hoje não tenho sequer carro. De certa forma sinto que as motas vieram ser para mim uma hipótese de entrar no mundo Rally, nem que seja de forma extremamente amadora – perigosa até – enquanto varro trilhos com uma confiança crescente, na minha moto pessoal por onde andam animais e pessoas: a pé, de bicicleta, de tractor. Refugiei-me em algo que me traz satisfação pessoal e não penso largar, porém estou a eliminar gradualmente o perigo naquilo que faço. Para os outros.

Estou a regressar do meu sonho perdido, gradualmente, e levei a minha mulher para estar comigo nesta nova etapa: Fomos assistir à Baja Portalegre 500. Ela é filha de ex co-piloto de Rally. Ela assistiu de perto a várias etapas do circuito nacional onde o seu pai correu. Ela conheceu pilotos que hoje são referência, privou com eles, sabe o que é o mundo Rally. Ela tem saudades desses tempos e eu saudades de sonhar com eles. Com todos estes factores, o primeiro Rally a que assisti teria que ser vivido com a Marta!

Baja Portalegre

Eram 8:30 e estávamos a sair de casa, meia hora atrasados face à hora originalmente planeada. Connosco levávamos uma mochila cheia de comida para garantir que mal não passaríamos se, por acaso, nada houvesse no local que escolhi para ficarmos. Eu pesquisei um pouco mas não sabia bem ao que ia, por isso escolhi pelo seguro a Zona Espetáculo 5, no Monte da Pedra

Pelo caminho, de forma a atestar o carro e beber um café, paramos num intermarché e logo começamos a ouvir aquele som: os motores endiabrados, de rotações puxadas ao limite, a gritar de entusiasmo pelo que estavam a fazer. Ninguém sabia onde eles andavam, mas era impossível não saber que por lá aceleravam! Eram por isso visíveis na minha expressão pelo menos 4 dentes, definitivos do lado de fora da boca até ao fim do dia.

Chegamos à zona espectáculo e a azáfama é desde logo perceptível. Carros por todo o lado, estacionamento cheio, um cheiro intenso e agradável a carvão e churrasco! Sou confrontado com o atraso na saída de casa quando paro o carro e, por entre vegetação, noto que bem perto de mim passou o António Maio, cuja mota é inconfundível. Disse logo para a Marta quem passou e ela pediu-me para não começar a dizer o nome deles todos. Eu não o ia fazer, até porque poucos eram os que conhecia visualmente. Na verdade, sem olhar para o nome na camisola ou para a cara deles, eu julgo que para além do António Maio só reconheceria o Mário Patrão e o Buhler. Falhei a passagem dos três…

Posicionamo-nos primeiramente à frente do salto à espera de um belo espectáculo, mas logo nos apercebemos que ali não vemos o que realmente nos importa: a destreza e técnica de condução. Prontamente procuramos um melhor lugar, que descobrimos a cerca de 100m do carro, numa curva com vista para o salto e toda a recta da qual ele faz parte. Agora sim, temos posição para apreciar todo o dia de Baja!

Vemos uma, duas, vemos todas as motas passarem. Eu faço vídeos, faço fotos, testo ângulos e gradualmente vou mudando de posição. Estava realmente entusiasmado com a experiência e dedicado a guardar as melhores memórias físicas para acompanhar a lembrança que trouxe deste dia. Eu era uma criança autêntica, que se afastava da Marta gradualmente à procura do máximo de sensações que um dia de Baja permite ao seu público.

Baja Portalegre

Num dos vários momentos em que parei ao lado da Marta para apenas apreciar, junta-se a nós um grupo de adeptos de Rally, que nos fazem algumas perguntas acerca de quem passou, às quais somos forçados a responder um triste “Não sabemos”. Ali percebemos que existe realmente um público que acompanha o circuito Nacional e internacional de Rally, que conhece os pilotos pelo nome e pela viatura, que sabe como andam e qual a sua classificação no campeonato. O que é afinal ser fã de uma modalidade? Lembrei-me imediatamente do meu conhecimento acerca de futebol, dos clubes que conheço e jogadores que os compõem. Terei mantido uma distância de segurança para um sonho frustrado, ou não serei fã?

A certo momento, quando passavam os últimos pilotos SSV, menos mediáticos e, por azar, cuja partida coincidiu sensivelmente com a hora de almoço, senti uma zona espectáculo sem energia, murcha de emoção e interesse. Senti que ainda queria viver a corrida, que os pilotos mereciam passar por uma zona onde sentissem que alguém estava efectivamente a vê-los passar. Aproximei-me por isso da curva e soltei tímidos aplausos, envergonhado pelo facto de ser o único, especialmente porque não sabia sequer quem estava a aplaudir. Eram dois capacetes numa carcaça barulhenta, que até nem faziam a curva de forma tão rápida como os anteriores, mas que estavam ali para me proporcionar um dia para recordar, e esse é motivo suficiente para o aplauso.

Baja Portalegre

Cada viatura aproxima-se da zona espectáculo com um som crescente e espaçado, de aceleração nervosa que cria no público uma expectativa de preparação para ver um piloto chegar. É por isso difícil não notar quando um motor que se fazia ouvir demora a chegar, tal como o é não notar que o silêncio conquistou o espaço. A acompanhar este silêncio vejo ao longe crianças a correr para uma área totalmente oposta à minha curva. Vejo uma peregrinação adulta, lenta mas intensa. Sinto uma curiosidade latejante e torna-se inevitável para mim: Vou ver! Percorro toda a zona Espectáculo para o lado oposto de onde estou para ver, do outro lado do Eucaliptal, um SSV parado, rodeado de toda uma população, com pilotos de mão na cabeça e espectadores ajoelhados em frente à transmissão. É a Baja!

Baja Portalegre

A correia de transmissão do carro 914 partiu. Os pilotos pedem por telefone que a sua equipa venha entregar uma nova para que possam prosseguir a corrida e o povo – ou não fosse constituído por portugueses – procede em duas formas de estar diferentes: Se por um lado existem os mais habilidosos que tentam diagnosticar o problema e improvisar soluções, por outro existem aqueles que primam pelo bem estar dos pilotos e não tardam em providenciar uma lata de sumo de cevada para que a hidratação não falte e a frescura (física pois claro) se mantenha. Por entre o reboliço da circunstância chega um carro de apoio da organização, pronto a rebocar o SSV para uma zona segura. Eles comunicam preocupados para a importância de manter a via desobstruída, e falam de dois outros acidentes que ocorreram momentos antes.

Baja Portalegre

Notei neste meu dia de espectador, principalmente devido à conversa com outros presentes, que existem vários acidentes. Uns que permitem prosseguir prova, outros que nem por isso. De facto, quando os 4×4 chegaram foi mesmo possível ver um ou outro com marcas de acidente. Outros houveram que deviam ter passado por nós numa determinada ordem e nunca o chegaram a fazer. O paralelismo foi imediato: Eu penso nos passeios e eventos motociclísticos em que ocasionalmente participo e é inevitável lembrar que em todos acontece algum percalço com um participante. Obviamente que numa Baja com classificações finais em jogo, tal facto se torne uma realidade incontornável.

Sempre que ouço falar de uma determinada prova pouco ou nada sei do que de mal lá aconteceu. E julgo que essa deve ser a postura a adoptar, tendo em conta que os pormenores negativos tendem a afastar os mais cépticos. No entanto, infelizmente, a imprensa foi pronta a divulgar, em jeito de última hora, do terrível acidente que provocou o atropelamento de um idoso. Soube-o por conversa, mas logo descobri a notícia em destaque ao pesquisar “Baja Portalegre 500” no Google, no próprio dia. Infelicidade jornalística, a meu ver. Pronta recuperação à vítima, é o que eu desejo!

Um amigo meu, fã desde que o conheço da Baja Portalegre e aspirante a piloto participante teve o privilégio de estar por dentro do evento deste ano, como membro logístico da equipa da Longitude 009. Por entre deslocações teve oportunidade de me telefonar e fazer o convite para ver o final da prova, em Portalegre. Conferenciei com a Marta e a decisão prenderia-se, essencialmente, pelo dilema de ir e perder a passagem dos 4×4 ou de ficar e não lhe dar um abraço num dia que também é de felicidade para ele. Felizes que estamos todos, sabemos que um jantar oportuno terá melhores efeitos práticos e a decisão é pronta e mútua: Ficamos.

A chegada dos 4×4 estaria prevista para as 14:30 na zona onde nos encontrávamos porém, pelas 14:15 surge, de forma inesperada e assoberbante, um som diferente de todos os que ouvíramos até então. Um rugido que demorou mais que os anteriores a acompanhar uma figura móvel na nossa direcção. Um grito que de imediato me fez sonhar acordado. É que eu aprendi a gostar muito de motas, mas não sei ainda até que ponto deixei de gostar da imponência de 4 rodas a levantar pó.

Baja Portalegre

O primeiro carro chega com um estilo de condução totalmente diferente dos veículos vistos até então. São três as pisadelas evidentes no acelerador desde que o vejo até que passa por mim, separadas por um deslizar de curva estilo filme de Hollywood, um salto que avisa claramente que uma das áreas onde eu estive anteriormente a assistir não era mais viável e um lavrar de trilho imediato, que transforma uma curva já de si modificada por toda uma manhã de passagens automóveis num verdadeiro campo, pronto a cultivar. O meu coração palpitava. Foi isto que vim ver!

Monte da Pedra

Como em todas as categorias automóveis até então, também aqui foi evidente a diferença de ritmo de condução entre os primeiros e os últimos a passar pela nossa zona. Talvez mais evidente ainda, de tal forma que após a passagem daquilo que pareceu ser um carro híbrido, cujo som não se fez ouvir de todo, o cansaço físico manifestou-se e alertou para o horário: Eram 16h e a adrenalina baixou totalmente. Perdoem-me os ecologistas.

Eu e a Marta vamos para o carro e iniciamos a nossa viagem de regresso a Lisboa. De bochechas latejantes, aproveitamos a energia que ainda sobra para partilhar emoções de um dia em cheio. Para me ajudar, a Marta vai fazendo comparações inevitáveis entre o que viu e o que via quando o seu pai ia no interior de um carro por esse país fora. Partilhou memórias e fotografias desses tempos, até que os olhos pesaram.

Portalegre tem um tesouro e privilegiados são aqueles que já o viram.

Por aqui voltei a sonhar.

Nani Roma


One thought on “Baja Portalegre 500 – O sonho”

  1. Não sendo dado ao tipo de aventura que viveram, adorei o entusiasmo e a riqueza da narrativa.
    Obrigado!

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