O Aniversário

A data do meu aniversário é algo que todos os anos me deixa indiferente. Para mim, é um dia como qualquer outro com a particularidade de que várias pessoas, de uma ou outra forma, acabam por descobrir que faço anos e criam uma onda de felicitações que eu prefiro evitar. Por esse motivo tento sempre tirar um dia de férias e passá-lo sossegado.

Este ano, no entanto, fiz anos a um sábado e por isso pude poupar um valioso dia de férias, a usar numa qualquer oportunidade de ponte entre feriado e fim de semana.

A Marta sabe bem da minha aversão ao festejo deste dia desde que uma vez, pouco depois de começarmos a viver juntos, decidiu convidar o meu grupo de amigos para virem a casa surpreender-me pela meia noite e se deparou com a minha reação desiludida, ansiosa pelo desejado descanso sem confusão. Na verdade, acho que tenho um gosto particular por passar este dia em modo “Reflexão”. Cada um com a sua pancada!

Assim, com quatro anos de experiência acumulada comigo, a Marta optou por surpreender-me de outra forma este ano – “Não é nada para a mota” – disse. Mas foi tão bom!

Tudo começou com um convite através do calendário do Google, que me mandava atestar a Dirqwana logo às 6:30 de Sexta. Um outro convite mandava estar em casa de malas feitas às 17:30. A ansiedade cresceu em mim após estes dois convites e eu, qual criança antes do Natal, não evitei fazer perguntas atrás de perguntas ao longo da semana até que inevitavelmente a Marta cedesse e partilhasse comigo o destino do fim de semana: Sharish – Monte das Estevas, em Estremoz.

Ela pensava que eles eram os produtores do Gin com o mesmo nome e que, por isso, íamos ter oportunidade de relaxar a 100% graças às fotos que invadem todas as páginas acerca deste espaço, com direito a gin à beira da piscina enquanto o pôr do sol espreita. Eu acreditava sinceramente que ia poder dar uns mergulhos, iniciar o meu bronze de Verão, andar de mota e passar tempo de qualidade com a minha noiva. Pouco mais me tinha passado pela cabeça!

Vista lateral da casa
Sharish – Monte das Estevas

Sexta-feira eu não tenho a mota atestada às 17:30, mas tenho a mala feita e estamos prontos a sair! A Marta ultima detalhes (mulheres) e eu vou preparando a mota. Quando arrancamos, a primeira paragem é na bomba de gasolina para atestar e preparar para quase 200km de autoestrada! Tínhamos mesa marcada e, por isso, tempo contado.

Ao pensar em autoestrada eu dou o primeiro sinal à Marta de que ela ia sofrer (e eu). Afinal estava um dia com vento acima da média e isso, a juntar à autoestrada, significaria duas horas de dança em cima do banco. Porém, no meu pensamento há uma mensagem constante: “Estás de pneus cardados…ESTÁS DE PNEUS CARDADOS!”. Por um lado, não queria derreter este tipo de pneu em autoestrada, por outro lado tinha pressa…azar! Fui nos limites legais de velocidade e fui confiando na hora estimada de chegada, fornecida pelo GPS, para me manter numa velocidade constante que me permitisse por um lado chegar a horas, por outro evitar acabar este fim de semana com um pneu quadrado. Consegui!

Chegamos ao Sharish por volta das 20:15, mesmo a tempo de largar a bagagem no quarto e rumar ao restaurante para nos sentarmos à hora marcada. À chegada somos recebidos pela Alexandra, a anfitriã, com um gato recém nascido ao colo – “Os olhos abriram há um dia” – disse, enquanto a Marta se derrete. Retiro a bagagem da mota e somos encaminhados até ao quarto, acompanhados pela simpatia da anfitriã, claramente com alguma empatia prévia já criada com a Marta. Eu, assoberbado por stress e pela vida citadina venho ainda algo fechado, pouco empático, mas a contemplar o que vejo. A entrada tem influência árabe, com meia luz ajudada pelo pôr do sol. A casa, logo que entramos, recebe-nos com um abraço de decoração cuidada e um desafogo que os tectos altos e grandes áreas proporcionam. O quarto, esse, é melhor do que eu esperava. Uma suite enorme que só em hotéis 5 estrelas tinha visto, mas onde nunca tinha pernoitado! Pobre mim. Quanto ao Gin, essa é outra marca. Porém, eles cederam gentilmente os direitos de utilização do nome pois, segundo a Alexandra, Sharish é a nomenclatura árabe para Monte das Estevas. Esclarecidos!

Os capacetes ajudam à decoração
Pormenor de decoração do quarto

Recebidas as instruções da casa, prontamente rumamos até à Dirqwana para rapidamente nos colocarmos no Alecrim, o restaurante marcado para jantar. Levamos do Sharish algumas recomendações prévias do que pedir, pelo que fica menos difícil percorrer a ementa com o olhar, mas ainda de um desafio árduo face à vontade que dá de experimentar tudo! Depois de escolher o que comer, o desafio é decidir o que beber. Somos encaminhados à adega do restaurante onde a rapariga que nos atendeu (claramente quem marcava a diferença pela qualidade do atendimento, mas cujo nome infelizmente não registei) tenta de alguma forma posicionar-nos em relação àquilo que são os nossos gostos e o valor até onde queremos chegar no momento de pagar a conta. O vinho Aventura foi a escolha…qual mais!?

A refeição é uma explosão de paladares. Na boca a sensação é a do Fogo de Artifício da passagem de ano, face à qualidade de cada um dos produtos colocados em cima da nossa mesa. Seria difícil destacar um dos vários pedidos que fizemos, pelo que eu fico pela facilidade de generalizar a qualidade de tudo no Alecrim. Já mais fácil é destacar novamente a capacidade de atender, vender e satisfazer da rapariga que nos atendeu, que a meio da refeição ainda trouxe um Dona Maria para contrastar com a garrafa já meio bebida do Aventura. Ela mereceu gorjeta de alguém que nunca dá gorjetas.

Finda a refeição sabemos que a qualidade paga-se e o valor da conta reflete isso mesmo quando comparada com uma outra refeição em Lisboa, por exemplo. Não ficámos chocados e equacionámos inclusive regressar. Já no regresso ao Monte das Estevas o verdadeiro desafio foi sair da cidade de Estremoz! Nunca antes eu tinha entrado numa cidade de onde precisei do GPS para sair! Dei voltas, andei por ruas estreitas, circulei e explorei até que, algo frustrado, decido colocar o GPS a trabalhar. Terá o vinho contribuído para a desorientação?

No dia seguinte – do meu aniversário – eu acordo embalado pela vida citadina, deixando a Marta disfrutar do seu sono regenerador enquanto me divirto a tirar umas fotografias. Já trago todo um workshop do Bruno em Fotografia no telemóvel comigo e, por isso, é inevitável desafiar a minha capacidade de enquadramento enquanto o sol vai subindo pelo mar azul acima de mim. São 7:30 e só penso nesta qualidade de vida.

Duas espreguiçadeiras contemplam o horizonte
Uma das vistas panorâmicas possíveis

A Marta acorda, contemplamos um pouco da vista que a janela do nosso quarto proporciona, preparamo-nos e saímos para o pequeno almoço. E que pequeno almoço! Mesa farta, com cor e sabor, e direito ainda para um tímido cantar de parabéns com um pequeno bolo.

Mesa farta, com tudo o que é bom.
O povo português rejubila com uma boa refeição

Somos aconselhados a visitar o mercado de Estremoz, que acontece aos Sábados em frente ao restaurante onde jantáramos. À saída para lá, surge o Miguel, o outro anfitrião. “Bela mota a Africa Twin. Eu tive uma Transalp e ainda andei a ver de uma dessas, mas depois não se deu o negócio” – disse, e prosseguiu – “Logo dou-vos uns caminhos pela Serra d’Ossa muito bons para se fazer com essa mota”.

Acendeu a lanterna, tal como nos sempre felizes desenhos animados.

Perguntei se tinha mota e a resposta foi sim, tem atualmente uma Kawasaki KLX125, que já não conduz há algum tempo.
Então vamos os dois dar uma volta! – sugeri, já sem dúvidas de que iria subir até à Serra, perfeitamente visível do nosso alojamento.

A mota do Miguel
Kawasaki KLX 125

A conversa termina e eu e a Marta seguimos na nossa Dirqwana rumo a Estremoz, novamente, para desta vez a conhecermos de dia e com feira. A chegada é fácil e o estacionamento também, afinal de contas estamos de mota e para as duas rodas nunca falta lugar, apesar do mar de latas a quatro rodas que preenche a vista frente à feira. E que enorme é a feira! Velharias, antiguidades, utilidades, produtos agrícolas, frutas, legumes, bolos e tantas mais coisas que me fazem ainda hoje duvidar seriamente se consegui ver tudo o que estava à disposição por lá!

Eu, que cada vez mais me deixo incluir numa vida rural e desprovida da opinião alheia, procurava naquela feira uma única coisa que por não ter encontrado, levou ao nosso abandono: uma boina. Eu, menino da cidade que passo tempo no campo e gosto imensamente da sensação de me sentar aos comandos do tractor enquanto contemplo o Olival ou apenas o ar da Beira Baixa, sinto que a boina é o acessório ideal para me proteger dos raios de sol nos dias em que o calor não aperta. Eu quero uma boina!

Terminamos a hercúlea tarefa de conhecer Estremoz no alto do castelo, junto à Rainha Santa Isabel. Tanta história temos oportunidade de lembrar, ou até de aprender quando ao lado de um símbolo da bondade humana. A quem me lê as palavras, recomendo: Ide vê-la!

Africa Twin ao lado da memória da Rainha Santa Isabel
Pequeno despautério

Com luz solar é um pouco mais fácil de dar com a saída de Estremoz, mas ainda desafiante quanto baste! Conseguimos sair e ir em direção ao Sharish onde passaríamos a nossa tarde com sol, descanso e mergulhos na piscina. Maravilhoso hino à paz e descanso pudemos testemunhar naquela tarde, repostos que foram os nossos níveis de bem-estar. Ao final do dia, a regra da Alexandra e do Miguel é a de abrir uma garrafa de vinho e acompanhar a descida do nível da bebida no seu interior com o pôr do sol, que ali sinto que será sempre um momento espetacular!

Somos acompanhados neste momento por um conjunto de amigos dos nossos anfitriões: O Rui, o Jorge e o Duarte. Todos eles chegam, partilham da(s) garrafa(s) de vinho connosco e transpiram para nós também um pouco da sua paz interior. Parece que aquela casa é uma espécie de íman de boas energias! Porém, eles vieram para jantar e eu e a Marta despedir-nos-íamos pouco depois para também nós irmos jantar, consumado que foi o pôr do sol.

Com a saborosa experiência do jantar no dia anterior, a nossa expectativa ficou alta – bastante alta – pela água na boca que todos no Sharish nos criaram quando nos falaram do Gadanha, o restaurante deste último jantar em Estremoz. Felizmente para nós a expectativa não foi de todo gorada, e sentimos mais uma vez o calor aconchegante da cozinha alentejana, mais concretamente – e arrisco-me a dissociar – da cozinha de Estremoz.

Regados desta vez pelo inigualável Solstício, a nossa refeição faz-se de forma lenta, com as pupilas dilatadas e um sorriso na cara. Estamos claramente alterados, em metamorfose, janados! Estamos pedrados, ou almofadados (?) pela expansão do estômago e explosão de sabor da sobremesa. Ai o açúcar!

Mais uma vez pagámos pelo que comemos, pelo que sentimos, pelo que bebemos e que nos rimos. Que bom é poder pagar uma refeição destas. Que bom é viajar no país, conhecer o país, sentir o país. Não é bom ser português?

Depois do jantar ainda nos sentamos à mesa do Monte das Estevas para trocar mais uns dedos de conversa com os nossos anfitriões e seus amigos. Política, veja-se, em véspera de eleições. Parece que os vinhos alentejanos também acendem no nosso interior uma velinha reivindicativa, consciente, empírica. Grândola Vila Morena!

Em Portugal usa-se a expressão “A cereja no topo do bolo” para adjetivar os complementos; aquilo que vem para acabar algo já de si bom. O toque final. O dia de domingo! Começo por sair da cama às 7h para me juntar ao Miguel num café e numa volta de mota pela Serra d’Ossa. Ele tira a sua Kawasaki da garagem, eu ligo a minha Dirqwana e estamos prontos! Nisto do fora de estrada percebemos muito das intenções de quem anda connosco apenas pela forma como se equipam, e por isso confesso que me sentia algo apreensivo porque ia andar de calças de ganga e ténis, com as únicas proteções no casaco e no capacete. A apreensão aliviou por completo quando o Miguel surge em frente a mim de “penico”, óculos de sol, t-shirt, calças de ganga e sapatos.
Vamos descontraídos – diz. Ah pois vamos!

Por entre trilhos, vales, montanhas, vistas e cheiros vamos circulando, a ritmo baixo. O Miguel mostra-me um pouco do que temos na Serra d’Ossa, desde propriedades a monumentos, e leva-me a divertir fora de estrada. Por esta, antes de sexta-feira, não estava mesmo nada à espera!

Honda XRV750 Africa Twin e Kawasaki KLX 125 offroad
Vale Alentejano

O regresso ao Sharish dá-se na hora de alimentar as éguas, 5 no total! Ele abre o portão do terreno, deixa-me aproximar delas e pede para me dar a cheirar. Sendo eu uma pessoa de estatura alta para a média portuguesa, sinto um enorme respeito quando na presença de um animal maior que eu. Com as dicas do Miguel e o tempo, fui ganhando gradualmente mais confiança junto das éguas até a Marta chegar junto de nós.

Alimentando cavalos
Felicidade junto das éguas

No Sharish, a postura do Miguel e da Alexandra para com as éguas é de as deixar viver uma vida mais aproximada à Natureza do animal quanto possível. Não as acorrentam, não as separam, não as ferram, nem as montam com qualquer tipo de ferragens. Na verdade, quando montam, procuram que seja inclusive sem sela. É uma atitude de respeito e admiração pelo animal, de carinho, de estima. É aliás parte da postura que têm também para com os hóspedes, a quem procuram proporcionar a melhor experiência possível. Poderiam limitar-se a alugar as suites, com oferta do pequeno almoço e da utilização da piscina, mas fazem tão mais que isso sem invadir o teu espaço, sem te importunar e – esta é de facto a minha preferida – sem fazer muitas perguntas!

Carinho entre mim e a égua
Respeito animal

Não perguntei muita coisa à Marta, por isso não sei ao certo o que eles já sabiam para além do facto de que eu fazia anos no sábado. A Marta organizou tudo sabendo que eu não gosto de festejar o aniversário, mas fez-me efetivamente festejar e foi parte ativa desse festejo. A ti, obrigado!

Vista panorâmica da Piscina
A noiva no horizonte

Despedimo-nos, com a promessa de voltar e de recomendar aquele espaço a todos os que nos são queridos. Seguimos pela estrada nacional, com pausas frequentes para alívio do calor e ainda uma sempre conveniente Bifana de Vendas Novas.

Chegamos a tempo de cumprir com o nosso dever cívico de votar, dissociando-nos dos quase 70% de abstenção. Vergonha alheia, desta vez sem vinho.

Uma das cadelas da casa junto à piscina
Viramos a cara à falta de responsabilidade

4 thoughts on “O Aniversário”

  1. Este texto – peça artística que se distingue pelo fino estilo, pela surpreendente clareza e pelo sublime estado de alma que, em todo o discorrer, se vislumbra estar invadindo o seu autor – vem na esteira de outros anteriores a que ele já nos habituou.
    Presumindo que assim fosse, apesar de o ter recebido há três dias, reservei, para o abrir – e sorver, a preceito, a sua mensagem – um momento em que uma leitura deste género constituísse, para mim, o valor acrescentado, distinto, que uma leitura apressada, de viés, jamais proporcionaria.
    Foi um dia com muitas e diversificadas actividades, pelo que, depois de jantar, tendo-me refugiado no silêncio do escritório, entre papéis, anotações, agendas e conjecturas, dei a pensar cá para comigo que já bastava e que era chegada a hora apropriada para abrir a mensagem de “Aniversário” de “Terra, Rocha e Alcatrão”. Desde as 12H59 de há três dias que ela jazia no meu correio electrónico, à espera do momento adequado para ser desenvelopada e lida e se tornar inebriante refrigério das mazelas do dia a dia, a modos que como um Xanax que me expedisse para os braços de Morféu, na expectativa de uma noite de sono reparador, antecâmara da radiosa alegria que, desde o abrir de olhos da manhã, em cada dia aposto e espero viver.
    Et voilá! As minhas expectativas só pecaram por defeito!
    Não fui surpreendido: fiquei, sim, maravilhado! Apreciei o entrecho, a narrativa e a rica e variegada descrição dos mais deliciosos pormenores que sobremodo ornaram e com aparente naturalidade aprofundaram o conteúdo da romântica prosa.
    Atrevo-me a formular votos de parabéns – não só pelo bálsamo com que impregna os textos que produz mas, também e sobretudo, pelo seu aniversário. Que vivam muitos mais – sempre com cumplicidade, com felicidade e com verdade, pois esta é também a maneira que o Criador escolheu para que as suas criaturas façam melhor o mundo em que as colocou e estejam à altura da beleza de toda a Sua criação.
    José Nunes

    1. José, o que responder a um comentário assim? Muito obrigado pelas palavras, pelas felicitações e sobretudo pela força que uma intervenção destas dá a quem investe um bocado do seu tempo a escrever o que julga fazer sentido, e o publica para que todos possam ler. Noto que muita gente corre pelas palavras – mas mesmo por isso já fico contente – por isso fico deveras feliz quando sei que alguém efetivamente leu.
      Até ao próximo!

  2. Bem…este texto, além de muito bem escrito (como todos os outros…) tem um simbolismo especial! Acredito que é um bom “cronista” que mede cada uma das palavras que escreve e nos transporta para um mundo fantástico em que sorrio, me leva até lá, e me sinto parte integrante da “vossa história”. É muito bom lê-lo!

    1. Obrigado D. Melita! O que é a escrita senão transportar o leitor para o nosso mundo? Fico contente que goste e que tenha vontade de ler mais!

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