É bom ser bom

Cá por casa tenho um acordo com a minha noiva: Por cada fim de semana que passo fora a andar de mota, tenho de organizar outro com ela. É no seguimento da paga desse acordo que surge este bom artigo.

Na sequência do desastroso fim de semana inventado, peguei na aplicação do Booking e comecei a procurar estadias que não fossem os típicos hotéis, mas que tivessem ainda o seu conforto e toque de requinte. Procurei essencialmente um espaço para onde pudesse ir com o meu cão que não fosse uma qualquer casa igual à de todos nós, e tanto procurei que acabei por descobrir o Ecorelax Container: um contentor, literalmente, transformado em casa e largado no meio de um pinhal jovem, ladeado por dois terrenos agrícolas e uma ribeira de água gélida a escorrer pedras fora. A paz e ecologia em alojamento!

O contentor, no meio da floresta, e a contemplação da Marta.
Perdidos na Floresta

Chegámos, descontraímos ao som da chuva, jantámos e bebemos a bela garrafa de vinho enquanto a lareira elevava a temperatura interior para uns abafantes 28ºC. Foram tiro e queda! O sono foi instantâneo e a vontade de dormir idem.

O Gastão (o meu cão) junto à ribeira
O Gastão na ribeira

No entanto este artigo não visa tratar o alojamento e por isso passamos diretamente para o próximo local: Casa Ci, em Vila Franca da Beira. Outra ode ao descanso, localizada no interior da aldeia, porém com uma envolvência e uma decoração que fazem qualquer um teletransportar-se diretamente do interior de Portugal para um qualquer destino do turismo em massa e das fotos virais!

Aqui descansámos, comemos tão barato que questionámos o empregado de mesa e ainda tivemos oportunidade de conviver com outro casal a usufruir da mesma oportunidade de descanso que nós, porém com a particularidade de se prepararem para a exaustão física de percorrer a ciclovia do Dão. Lembraram-me dos meus tempos de BTT e do alívio que foi para mim descobrir o todo o terreno em cima de um motor!

Cada um no seu sofá, tapados pela manta, frente à televisão e à lareira
Descanso junto à lareira

Introduções feitas, é no pequeno almoço deste local que começa o corpo deste artigo! Numa mesa farta, há um alimento que se destaca: um requeijão delicioso acompanhado de um belo doce de abóbora. O nosso instinto foi mútuo e de reação imediata: Perguntar de onde veio! A Marta é fã assumida de queijo e eu sou apenas um apreciador, curiosamente com preferência clara por queijo da serra…da Estrela!

Somos encaminhados para a Queijaria dos Lameiras – produtora do requeijão do nosso pequeno almoço – e logo damos de caras com um cenário dantesco, a fazer lembrar a tragédia que assolou o nosso país em 2017! Árvores ardidas por todo o lado, a 200, 100, 50, 2(!) metros da queijaria, fizeram-nos questionar como seria possível estarmos diante de uma casa tão branca, com tão bom aspeto e sem marcas visíveis de um evidente incêndio. Só podia ser nova!

Quando entramos, somos recebidos pela Paula Lameiras, proprietária do negócio que vem de gerações da sua família. O queijo faz parte de si, como a persistência faz parte de um negócio que foi totalmente levado pelos incêndios e a obrigou a construir a queijaria de novo. É ingrato perder tudo para um fogo do qual não somos culpados, porém da boca da Paula ouvimos senão paixão e resiliência, essenciais também para um negócio que é cada vez mais industrializado e que tende a engolir os pequenos produtores.

A nossa escolha estava limitada a duas variedades de queijo: Curado e Amanteigado. “Dêem-me 4 horas e eu faço-vos um requeijão” – disse a Paula numa demonstração clara de que o queijo é produzido ali, de forma artesanal, pelas suas mãos e ajudantes.

No momento de escolher eu tento confirmar com ela uma teoria que tinha ouvido há tempos:
Nós vamos subir à Serra da Estrela agora e eu sempre ouvi dizer que o queijo amanteigado enrijece com a altitude, por isso é que não se deve comprar lá este queijo. É verdade?
Vou ser sincera consigo – disse a Paula – O queijo que compra na Torre, na maioria das vezes, não é Queijo Serra da Estrela.

A minha expressão devia ser a de alguém cujas crenças estavam a ser completamente desfeitas ali. Pelo menos a expressão da Marta era essa mesma e eu sentia claramente um remoinho cerebral ao confirmar que não sei nada. Fez-me lembrar uma série e uma expressão que se tornou viral “You know nothing”.

A explicação continuou e é bastante simples: Todos os produtores de queijo são obrigados por lei a possuir e apresentar o seu Certificado no rótulo do queijo: O BLT. Porém, no seu queijo a Paula tem uma outra marca que não passa despercebida: O “carimbo” da Estrela Coop, uma cooperativa de produtores de queijo que certifica que o leite utilizado para a produção do queijo é 100% de leite de ovelhas criadas e pastadas na Serra da Estrela.

Rótulo do queijo de ovelha curado
O rótulo da Queijaria dos Lameiras

Infelizmente, o que acontece com as grandes fábricas é que a demanda pelo produto é superior à que o pasto e o gado daquela região proporcionam, por isso compram leite espanhol que utilizam para produzir os seus queijos.
Até já me chegou aqui um comercial a vender uns “pózinhos” que servem para garantir que o leite tem sempre o mesmo sabor! – remata a Paula, ávida defensora da tradição e da variabilidade que o seu produto apresenta.

Queijo carimbado com o carimbo Estrela Coop
“Carimbo” da Estrela Coop – Imagem que não me pertence

O interior do País sofre de constantes incêndios e, por isso, de uma constante desflorestação e cada vez maiores períodos de seca. O gado, por ser um aglomerado de seres vivos, pasta todo o ano e por isso produz leite o ano inteiro. A questão é que o sabor do leite é diretamente influenciado pelo alimento de quem o deu (senhoras que tenham sido mães conhecerão este fenómeno na primeira pessoa), o que faz com que o queijo tenha, naturalmente, sabores diferentes ao longo do ano. Logo ali constatei: O queijo da Serra sempre me soube ao mesmo!

Vocês tiveram sorte – exclama a Paula – com a chuva das últimas semanas os pastos têm estado verdes, e este queijo já é feito com esse leite. O sabor fica um pouco mais equilibrado e menos intenso. Este agrada a mais pessoas!

Para além do leite e do sal, o queijo dos Lameiras leva apenas outro ingrediente: Cardo. Por ser um queijo de produção artesanal, aquilo que grandes fabricantes fazem com a adição de Coalho, a Queijaria dos Lameiras faz com as mãos de quem lá trabalha e a ajuda da flor de Cardo. Agora que já provei os dois queijos que trouxe só posso dizer: Belo queijo!

Mas esta conversa não abordou apenas queijo. A Marta, mulher que caminha ao meu lado rumo ao fim da vida, trabalha há cerca de três meses na padaria Gleba. Aqui o processo de fabrico também é totalmente artesanal e ela aproveitou o fio da conversa para reforçar a importância dos processos artesanais e tradicionais, a ausência de químicos e a contribuição que acreditamos que isso dá à ausência de doença ou, pelo menos, à correta resposta do nosso organismo a esses alimentos. Falou do trigo que vem de produtores portugueses, da moagem que é feita nos arredores de Lisboa em mó de pedra, da fermentação lenta do pão que é feita da noite para o dia e, por isso, do tempo que o pão aguenta mole, em cima da nossa mesa, até uma semana depois de vir da padaria.

Eu, qual noivo babado, imagino a minha cara enquanto a ouvia, em jeito de filme romântico, com zoom lento a uma expressão congelada, de contemplação, boca aberta e pupilas a dilatar lentamente. Coração palpitante, fruto do amor e da alegria por a ver crente do produto que vende. Ela que vem de experiências profissionais menos alegres, sem chama, com filosofias em que não acredita ou qualidade que não sente. Como é bom ser bom!

Com dois queijos na mão despedimo-nos, com a promessa de que voltaremos a visitar quando o nosso destino nos levar por aquelas paragens. Dificilmente esquecerei Vila Franca da Beira! Aldeia onde cheguei sem querer, porém que mostrou estar cheia de vida e me fez refletir que de facto o que importa não é o dinheiro que se faz a trabalhar, mas sim a consciência que temos de que o nosso trabalho serve para alguma coisa, ou para alguém. Que se nos esforçarmos para oferecer o melhor que temos e que somos, seremos sempre ricos. Não importa quanto tenhamos no banco.

A vista interminável da Serra da Estrela, com neve.
Serra da Estrela

Vou, alegre por ser português. Vou, desejoso de viajar em Portugal e conhecer o meu país como ninguém!

Termino, claro, com um repasto na Serra da Estrela. Até já!

Mesa farta e uma vista fantástica para a Serra, coberta de neve.
Repasto com vista para o manto branco

3 thoughts on “É bom ser bom”

  1. Excelente texto!
    É com experiências de vida como está, relatada no singular, que melhor se cultiva e sempre mais se acendia este gosto inaudito de ser português no nosso Portugal profundo.
    Adorei.

    1. Obrigado José! Sem dúvida que amo cada vez mais este nosso país. Temos tudo e damos valor a tão pouco!

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