Como escolher uma moto

Ultimamente, talvez alavancado pelos dias de sol, tenho visto cada vez mais questões em grupos de Facebook sobre opiniões acerca da moto a comprar. Desde novatos que procuram a primeira moto a alguns graúdos que experimentaram poucas motos e procuram finalmente ceder à tentação do mercado fervilhante que temos atualmente.

Em resposta a estas questões eu quis ajudar, mas logo perdi a coragem pela quantidade de respostas que são dadas com base na experiência pessoal, de pessoas naturalmente satisfeitas com a moto que possuem e que anseiam por ver a sua opinião corroborada com mais um utilizador da mesma marca e modelo.

Para não entrar em despiques de satisfação e lutas de marcas/modelos, procurei online algo que pudesse copiar e colar de forma a ajudar quem precisa, sem tendência para alguma moto em particular mas…não encontrei! Crio então nestas páginas o meu guia pessoal para escolher uma moto.

1. Definir uma moto

No mercado temos motos a 2 tempos e 4 tempos, porém vou limitar-me apenas às de 4 tempos, uma vez que atualmente 2 tempos é uma motorização utilizada principalmente em contexto de Enduro. Nas motos a 4 tempos podemos considerar uma moto quanto ao número de cilindros, sendo que existem monocilíndricas, bicilíndricas, tricilíndricas, tetracilíndricas e a partir daqui já nem se olha muito bem para o número de cilindros. A forma simples de perceber quantos cilindros tem a moto sem olhar ao catálogo é contar o número de “tubos” que saem do motor. Cada “tubo” chama-se colector e representa um cilindro. Exceção feita às motos monocilíndricas, que enganam com muitos modelos a apresentarem dois colectores!

BMW F800 GS
Moto Bicilíndrica

De forma simplista, quanto menor o número de cilindros menor será o consumo da moto, no entanto maior será a vibração do motor.

Quanto ao segmento, podemos dividir da seguinte forma:

  • Café Racer: Um segmento que nasceu das corridas de jovens entre cafés, com apostas de dinheiro. São por isso motos com um aspeto desportivo e minimalista, tipicamente customizadas e longe da versão original que saiu do stand. Atualmente já existem motos novas no mercado com essência café racer, porém com muito mais tecnologia e segurança a si associadas.
  • Scrambler: Um estilo original da Ducati, entretanto globalizado. Uma espécie de Café Racer com características todo o terreno. São por isso motos de assento recto, de aspeto simples ou clássico, com pneus cardados.
  • Custom: As motos Custom são as motos tipicamente americanas, largas, com grandes poisa pés e próximas do solo. Dentro deste segmento podemos talvez incluir as chopper e as bobber. São os chamados “ferros”: Motos facilmente customizáveis, raramente encontradas nas estradas 100% originais.
  • Desportivas: As R’s. Motos em muito semelhantes às que vemos nas corridas do MotoGP, de aspeto e comportamento desportivo, independentemente da cilindrada. Posição de condução bastante curva, para maior aerodinâmica.
  • Sport Turismo: Motos semelhantes às desportivas, com uma posição de condução menos curvada e de motor menos reativo, mas ainda significativamente potentes. No entanto, nos últimos anos têm sido desenvolvidas motos deste segmento com estética Trail.
  • Turismo: Motos grandes, confortáveis, pesadas, construídas para fazer centenas de quilómetros sem pausa. Quem não está familiarizado lembrar-se-á das motos de grandes assentos, com rádio capaz de dar música a todos os que as rodeiam.
  • Trail: Motos tipicamente altas, que proporcionam uma posição de condução vertical. Um segmento que gera alguma confusão pois é associado ao todo o terreno, no entanto apresenta vários modelos 100% estradistas. É uma espécie de um sub segmento Adventure. Consideremos este o segmento equivalente aos SUV, nos carros.
  • Maxi-trail: Uma evolução do segmento Trail, associado às motos Trail mais pesadas. Independentemente do peso e cilindrada, as casas de pneus, por exemplo, consideram este o segmento Trail todo o terreno.
  • Naked: Um segmento de motos com apetência desportiva, despidas das largas carenagens das Desportivas e por isso designadas desta forma. Motos tipicamente ágeis em andamento.
  • Scooter: Motos de mudanças automáticas, baixas em relação ao solo, leves e com uma posição de condução que em tudo se assemelha a uma cadeira com rodas. Proporcionam proteção aerodinâmica quanto baste, sobretudo ao nível das pernas.
  • Maxi-Scooter: Scooters maiores, não necessariamente de maiores motorizações. Mais pesadas, mais compridas e mais largas comparativamente às scooter. Com maior proteção aerodinâmica.
  • Dualsport: Um segmento “novo” de motos tipicamente enduristas, com intervalos de manutenção um pouco maiores e com motores menos explosivos, para serem capazes de percorrer uma distância maior em alcatrão até ao trilho.

Para além destes segmentos podemos ainda verificar em cada fabricante de motos algumas nomenclaturas específicas, que mais nenhuma marca utiliza, devido a fusões ou exclusividade de segmentos.

Podemos também analisar a cilindrada da moto, sendo que quanto maior a cilindrada, maior a velocidade de ponta do motor.

2. A Racionalidade da Escolha

Costuma-se dizer que uma moto deve ser comprada com a paixão e não com a razão, no entanto eu sei que não sou o único motard no país que olha aos números antes de tomar qualquer decisão e por isso, depois de definir um orçamento, o mais importante é olhar para o uso que vamos dar à moto de forma a saber exatamente o que devemos comprar.

  • Carta B: Nem vale a pena inventar. Scooter 125cc.
  • Condução 100% cidade: O ideal é uma moto leve, de baixa cilindrada, capaz de furar filas de trânsito. As scooter são as que melhor se encaixam na descrição, pois o facto de terem mudanças automáticas permite que o condutor se foque apenas nos obstáculos e nos perigos, para além de acelerar e travar. A considerar ainda as Naked, Trail ou até Café Racer, de 125cc.
  • Condução em cidade com ligações em estrada nacional: Em estrada nacional a velocidade máxima permitida por lei são 90km/h, que é a velocidade máxima da maioria das motos 125cc. Por esse motivo, motos com esta cilindrada são adequadas, mas vão sempre deixar no utilizador uma sensação de que falta qualquer coisa. O gosto pessoal determina o estilo de moto a escolher, numa cilindrada de até 300cc, para um bom compromisso entre velocidade e consumo.
  • Condução mista entre cidade, estrada nacional e Itinerários Complementares (IC): Em itinerários complementares há mais espaço e por isso utilizadores a circular a maiores velocidades, para além de mais exposição ao vento, seja pela meteorologia, seja pela deslocação do ar advinda dos veículos pesados. Por esse motivo recomenda-se uma moto mais pesada, entre os 250cc e os 800cc, mono ou bicilíndrica. O segmento será uma escolha pessoal.
  • Condução em autoestrada e estrada nacional: Para circular a velocidades de autoestrada qualquer moto acima de 500cc cumpre, no entanto a racionalidade aqui vai do tempo e distância em autoestrada. Quanto maior a distância percorrida em autoestrada, maior motorização, peso e proteção aerodinâmica deve ter a moto. Os segmentos Sport Turismo e Turismo são os ideais, com alguma intromissão das Maxi Scooter de maiores cilindradas e Trail.
  • Condução mista com hobbie de Track Day: As R’s e as Naked dominam quando as visitas ao autódromo são um desejo. A partir dos 600cc já se vêem muitos utilizadores em autódromo, sendo que aqui o céu é o limite no que toca à cilindrada e cavalagem da mota. Uma Naked perde na proteção aerodinâmica e, por isso, na performance em pista, mas o seu motor igualmente nervoso e de altas rotações permite diversão de igual maneira.
  • Condução mista com hobbie de Todo o Terreno: As Scrambler, Maxi Trail e Dualsport são as motos com maior apetência para sair do asfalto e visitar terrenos mais sinuosos. Aqui, o baixo peso é rei e por isso a racionalidade na escolha tem a ver com o tipo de terreno que o utilizador quer pisar. Estradões largos e compridos são ótimos para Scrambler e Maxi Trail, sendo que caminhos um pouco mais apertados e técnicos aproximam-se mais do segmento dualsport. O utilizador deve primeiro avaliar se passa mais tempo em alcatrão ou fora dele e, depois, avaliar o tipo de terreno que pisa fora do asfalto para decidir que segmento escolher. A cilindrada afeta o peso da moto e o comportamento desta quando em subida, para além da velocidade e força capaz de atingir. Para os fãs de scooter, também já existe uma Todo o terreno!
  • Passeios ao fim de semana / idas à praia: Este será talvez o tópico que pede mais paixão e menos razão. Para utilizar a moto de forma esporádica o coração deve mandar, porque o objetivo será sempre voltar à moto e não esperar que a bateria morra, oferecendo despesa e recordando o utilizador de desgosto constante. Queremos sorriso na cara em duas rodas!
  • Utilização diária, independentemente das condições meteorológicas: A racionalidade é a mesma dos tópicos anteriores, no entanto quando juntamos a esses um dia de Inverno com chuva forte, vento e fraca visibilidade, manda a segurança! Neste aspeto nada bate uma moto nova. A tecnologia evolui todos os anos e as normas de segurança impostas pela União Europeia para os motociclos novos evoluem ao ritmo das melhores descobertas tecnológicas. Neste tópico devem ser privilegiadas tecnologias como o ABS, o controlo de tração, a luz LED e até comodidades como Punhos aquecidos.
  • Utilização com vista a atrair o género oposto: Há segmentos de moto naturalmente mais charmosos que outros, porém é difícil definir uma regra. Tal como a nossa cara, também as motos não vão com todos e por isso há que procurar o padrão! As Café Racer e Scrambler, pelo aspeto Vintage, são sempre sedutoras, no entanto se forem monolugar a sedução fica-se mesmo pelo som do escape. Já as Custom são tiro certo! Que o diga a minha respetiva, que se derreteu comigo quando apareci à porta de casa dela na minha Virago 250.

Brincadeiras à parte, importa destacar sempre que na minha perspetiva a Racionalidade é algo entre o Ideal e a Paixão.

Yamaha Virago 250
Charme Miúdo

3. Ver a Moto

No momento de ver a moto tudo é simples no caso de irmos ao stand buscar uma 0km: Só temos de escolher a cor que mais nos agrada e negociar condições de pagamento. É na escolha de uma moto usada que está o desafio!

Existem regras simples quando a ver uma moto que até os mais inexperientes devem dominar:

  • No caso da tensão da corrente, verificar mesmo sem pôr o dedo na corrente se esta vai da cremalheira ao pinhão de ataque em linha recta ou se desenha um semi-círculo. No caso da última opção, verificar os afinadores de corrente e qual a tensão que eles têm, pois se tiverem margem para apertar mais poderá ser apenas um problema de tensão, no entanto se o aperto estiver no nível máximo o kit de transmissão estará com certeza a precisar de ser trocado. Não é um problema grave, apenas um ponto de ajuda à negociação. Verificar também o desgaste dos dentes da cremalheira!
Ajuste da moto
Ajustando a tensão da corrente
  • Esta dica recebi do Sebastião Guerra, mecânico que está a tratar agora da minha Dirqwana: Quando a testar uma moto, colocá-la no descanso central no caso de ter mudanças automáticas ou apenas no ponto morto para motos comuns e acelerar a fundo. Existem três tipos de fumo que podem sair dela, sendo que o primeiro é um pequeno fumo preto que rapidamente desaparece. Esse é o fumo resultante da gasolina que não queimou totalmente, normal quando uma moto leva uma aceleração a fundo! Pode também sair um fumo branco que se dissipa rapidamente, que significa apenas humidade. Normal em dias húmidos ou com motos lavadas recentemente. O fumo que devemos temer é uma nuvem branca, que não se dissipa! Pelo contrário, parece que aumenta cada vez mais! Essa nuvem significa óleo na exaustão, um sinal claro de que a moto bebe óleo…bastante! É um sintoma de pouca saúde no motor e, por isso, um sinal de que esta moto vai dar mais preocupações do que alegrias ao futuro proprietário. Existe ainda um quarto tipo de fumo, mais raro, que acontece com motos que estejam paradas há muito tempo ou que sejam de cilindradas superiores mas circulem 100% em cidade: um fumo algo acastanhado, da cor da fuligem. Esse fumo é precisamente fuligem queimada, que representa apenas uma dor de cabeça aos mecânicos para afinar a moto.
  • Verificar com o dedo no escape, com a moto em frio, que tipo de contacto recebemos. Se o nosso dedo tocar no interior do escape e sentir uma superfície poeirenta, temos um escape dito comum. Se, por outro lado, o dedo sentir uma superfície viscosa, que cola, é mais um sinal de que a moto bebe óleo.
  • Procurar na moto sinais de queda ou maus tratos, como manetes torcidas, folgadas ou até partidas; carenagens raspadas, amolgadelas em zonas metálicas e, se quisermos ser picuinhas, se as luzes acendem todas. O bom senso e o conforto que temos em relação a alguns destes sinais ditam a decisão.
  • Pesquisar problemas comuns da moto que vamos ver e perguntar ou verificar sobre eles junto do proprietário. Exemplo: Africa Twin RD07, problemas comuns com bomba de gasolina, retificador de corrente, fichas queimadas por baixo do painel traseiro esquerdo, bornes da bateria que desapertam.

Como forma de proteção, devo reforçar que não sou mecânico e que procuro passar alguns dos ensinamentos que já recebi. Este é um espaço aberto e, por isso, aceito novas dicas e correções a conteúdo aqui presente. Este blog é meu e é teu!

4. A Decisão

Nesta fase já foi feita toda a ponderação, já foram analisadas todas as variáveis e feitas todas as contas. Agora há-que achar o equilíbrio entre a razão e a paixão! A personalidade de cada um determina para que prato da balança pende a decisão.

A ajuda está dada. O Próximo passo é teu!

Boa escolha!

Moto sobre uma roda
A moto é um espelho do seu proprietário

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