Invento

Duas semanas antes de iniciarmos este “invento” – uma espécie de evento inventado por nós – eu e o Bruno decidimos sondar junto dos nossos amigos que partilham deste mesmo gosto por sujar as motas quem teria disponibilidade para alinhar connosco. Começámos com três confirmados e dois interessados, que logo passaram a dois confirmados e um interessado, para no dia da partida sermos dois confirmados e nenhum interessado. Verdade seja dita: grupos pequenos (e homogéneos) são o ideal para gerir ritmo e tomar decisões, porém nós gostamos sempre de andar em grupo. A diversão é outra!

O Bruno dedicou-se a fazer um levantamento de trilhos com apoio visual do Google Earth enquanto eu analisava e dava o meu parecer. Ao mesmo tempo íamos estudando o meio e decidindo destino – e até duração do invento – conforme os factores externos que nos apareciam. Entre eles:

  • O Bruno vai fazer um evento de motas Big Trail até Marrocos em Abril, e preferia não dar grande desgaste à mota para minimizar o investimento pré-evento;
  • Devido ao seu trabalho como (excelente) fotógrafo, este seria o último fim de semana que ele teria disponível para pontuar com a sua respectiva – Uma experiência de vida que faz toda a diferença na qualidade de vida é a constatação do facto de que na relação, a mulher tem de estar sempre satisfeita!
  • Ambos atravessamos uma fase de dúvida das nossas capacidades e, por isso, não conseguimos adivinhar o ritmo impresso para terminar um trilho até ao pôr do sol.

Foi a dois dias do início do nosso Invento que o planeamento ficou fechado: Sair de Lisboa pelas 14h, seguir o Trilho do TrailOut até Avis, optar por estrada se for noite ou apanhar um pouco do ACT até ao Alandroal, onde pernoitaríamos. No dia seguinte acordar e fazer parte de um trilho desde o Gavião até ao Montijo. Tudo perfeito no papel: dois dias a andar de mota e um dia para pontuar com as respectivas.

Mistura de 3 tracks, que iríamos seguir no Invento
Esboço do que iríamos fazer

Na sexta-feira, dia do invento, eu sou forçado a sair do trabalho apenas às 14:30 e, por isso, atrasar a partida cerca de uma hora. O Bruno, qual amigo empenhado, traz-me duas sandes de queijo para meu deleite, que contribuíram largamente para que eu segurasse esta minha menina de 220kg.

Nós, as motas e a Sandes antes de arrancar, nas bombas de combustível.
A Sandes

Fazemo-nos à estrada, chegamos ao Montijo e começamos o trilho. O Bruno leva GPS, eu sigo com a versão básica: Smartphone. Ainda assim, o Bruno foi o primeiro, e único, a enganar-se no caminho. Bruno Barata a ser Bruno Barata. Contudo, não foi a primeira vez que seguimos este trilho: já o tínhamos feito aquando da primeira experiência com o ACT, ainda eu tinha a NC700x.

Devido à minha memória, abordei este início de trilho de forma extremamente conservadora! Lento, em segunda, a sentir a tracção no terreno e a ganhar confiança gradualmente. Da primeira vez, na NC, levava um Michelin Pilot Road 4 à frente e um Heidenau K60 atrás. Má tracção, pouca experiência e, por isso, um ritmo baixíssimo! Foi por isso com bastante satisfação que, à medida que aumentava a confiança, senti o meu ritmo significativamente superior à primeira experiência, voando por cima dos pequenos blocos de areia. A recente experiência na Apostiça, a juntar aos novos Continental TKC80 que montara na Dirqwana (a minha Africa Twin) contribuíram bastante para esta facilidade, nova para mim!

As duas motas e um piloto a levitar de felicidade
Alegria a meio do Trilho

O dia foi evoluindo, tal como o trilho e a nossa condução. Com a bateria do meu telemóvel a esgotar rapidamente, decido desligar o GPS e seguir o Bruno. Inevitavelmente, entramos pela propriedade de alguém a dentro, abrindo portões e dando de caras com toda uma manada de vacas curiosas e algo assustadiças. Decidimos voltar para trás, até por receio de entrar em contacto com chumbo, e retomar o caminho certo. Curiosamente, foi a partir deste ponto que começámos a abrir cada vez mais portões e cercas de forma a conseguirmos seguir o trilho.

Chegados ao fluviário de Mora, o Bruno sugere parar para tirar umas fotos. Olhamos para o céu, vemos as horas, analisamos o que falta do trilho e eu sugiro seguir, para terminar o trilho de dia. O Bruno concorda!

A partir daqui, o ritmo foi o mais alto que conseguimos imprimir e seguimos, enquanto vemos o sol baixar, ansiosos pelo fim que tanto ambicionamos. Num terreno agrícola, quase sem luz solar, o Bruno encontra uma poça de água que julga ser excelente para uma foto, e por isso abranda. Eu ultrapasso-o, não percebendo que queria parar, sigo rápido e, numa recta, vou a acelerar até dar de caras com um portão. Travei tanto quanto consegui, porém a distância de travagem era curta. Em milésimos de segundo tive de tomar uma decisão e decidi cair em vez de bater no portão. Talvez ajudado pelo bloqueio da roda da frente, fui duramente projectado de lado contra o chão, embatendo com o cotovelo, rodando e deslizando cerca de 5 metros de peito, queixo e pala do capacete no chão. As pernas seguiam acima da cabeça, qual escorpião. Resisti a baixar as mãos e, felizmente, o equipamento fez o seu trabalho…pensei eu.

Levanto-me imediatamente e começo a sentir uma dor aguda desde o cotovelo ao pulso, abro e fecho a mão para tentar perceber uma eventual fratura e termino o diagnóstico a rodar o pulso. Não me parecia fratura, o que me deixou optimista para seguir o invento. O Bruno chega, levanta a mota e analisamos os estragos: Crash Bar partida, pisca partido e Proteção de mãos partida; um pequeno derrame de gasolina, que parou quando a mota ficou vertical e carenagem algo raspada. Eu sugiro irmos embora, porque as dores aumentavam. A conduzir, já me custa imenso apertar a embraiagem…o cenário não é favorável.

À porta do T0
As motas à porta do T0, no Parque de Campismo de Avis

Por uma questão de conforto, decidimos pernoitar no parque de campismo de Avis, em T0. O cotovelo incha completamente, ficando impedido de fletir e estender. Neste momento as dores são grandes, eu consigo vestir uma roupa mais confortável que levei e procuramos jantar. Sigo à pendura. Descobrimos a Taberna da Muralha e ficamos satisfeitos com a refeição, que serviu para esquecer um pouco as dores. No entanto, demoramos duas horas porque eu tenho de conseguir comer um bife apenas com um braço disponível. Na verdade, descobri toda uma panóplia de coisas que não conseguia fazer:

  • Colocar e retirar o capacete, sozinho;
  • Agarrar coisas tão leves como um telemóvel, à esquerda;
  • Manter o braço esquerdo suspenso;
  • Secar as costas com uma toalha, pelo menos da forma “tradicional”;
  • Apertar atacadores com as duas mãos;
  • Conduzir, fosse o que fosse.

Deitado, sou impossibilitado de dormir pelas dores que sinto e por isso sobra tempo para pensar seriamente no que vou fazer no dia seguinte. A minha ideia seria chamar a Assistência em Viagem para levar a mota de volta a casa e transporte para mim, de forma a chegar a casa e ir ao Hospital Beatriz Ângelo, que fica a 5 minutos da minha casa, ao invés de ir ao Hospital de Portalegre, que ainda ficava a 50km do Parque de Campismo e muito mais longe para um transporte até casa.

Mota a ser carregada no Reboque.
José Rijo carrega a mota no Reboque

No dia seguinte, sou surpreendido com o excelente trabalho do José Rijo, dos Reboques Rijo & Santos. Um excelente homem, que ainda bebeu connosco uma cerveja nos também excelentes Motards d’Avis. Já em relação ao seguro, foi uma dura negociação até conseguir transporte do Táxi desde o Parque de Campismo até casa, com pagamento da minha parte de um valor acordado de 50€ ao Sr. Américo, o taxista que me levou e que ainda entregou o meu esquecido capacete ao Bruno, algures a caminho de Avis.

Deste Invento, infelizmente terminado mais cedo, sobra mais uma lição: Onde há gado, há portões. Onde há portões, moderar velocidade. Nunca mais me esqueço!

Local do acidente, visitado pelo Bruno no seu caminho de regresso.
O local do acidente

Já em Lisboa, depois de 6 Raio-X ao cotovelo e antebraço, boas notícias: nada partido! Venha a recuperação e a próxima aventura!

No hospital à espera do Raio X, pulseira amarela.
No hospital com boa companhia

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