Senhor da Azeitona

Na Beira Baixa, a azeitona é o combustível do povo e o mês de Dezembro a época de atestar.

Sou um Beirão emprestado, herdeiro por afinidade de uma vista desafogada, de uma atmosfera leve, de Oliveiras centenárias, mais do que as que consigo contar! Sou noivo de casamento marcado na Beira e com a responsabilidade de cuidar como se meu fosse de tudo o que deixaram aos meus, sem contrapartidas para além da qualidade – a de vida, a do ar, a da terra, a das gentes, estas de perfil bem distinto das com as quais cresci, porém com as habituais exceções.

Tive oportunidade de viver uma aventura agrícola, de verdadeiro trabalho rural respeitando as regras do bem-fazer e das tais gentes que fazem vida dependente da experiência que eu vou ter, menino da cidade.

Era terça-feira e eu largava o trabalho às 22:15 em Lisboa. Em casa esperavam-me sogra e sogra avó, prontas a partir rumo ao Vale da Senhora da Póvoa, numa viagem de cerca de 3 horas com um piloto que carregava todo um dia de trabalho na bagagem e que, por sinal, sofria ainda do que seria uma amigdalite mal curada. A Marta pediu, em jeito de exigência, que a sua mãe falasse comigo durante toda a viagem e se há pessoa que cumpre uma regra é uma pessoa Beirã. Com afirmações, mas maioritariamente com perguntas, as 3 horas de viagem foram para a sogra uma missão concluída com sucesso e para as minhas amígdalas uma luta desleal, com uma derrota clara e silenciosa, com as últimas palavras possíveis a serem um “Não me leve a mal, estou bastante aflito da garganta. Vou ouvir mais e falar menos ok D. Melita?”

Concluída que foi a chegada, tempo agora para 4 horas, desta vez de descanso de dificuldade nula. O meu entusiasmo era tal que às 6h cumpri a alvorada com um salto da cama para a roupa mais quente e móvel que levara! Uma curta contemplação do nascer do sol em névoa, o pequeno almoço e a ida em busca da varejadora seguiram-se, para logo depois iniciar a vida agrícola de colheita da azeitona.

Nascer do sol em névoa
Nascer do Sol em Névoa

À boleia do André no trator do seu patrão e acompanhado na caixa pela D. Teresa, seguimos rumo aos terrenos da família para iniciar a colheita e uma nova fase de aprendizagem da minha vida. Desde os diferentes tipos de azeitona à proporção de azeitona para um litro de azeite, absorvi tudo. A colocação dos toldos no chão, as estratégias para carregar e arrumar a máquina, as necessidades da árvore e sua manutenção foram temáticas que abordei e aprendi, ao ponto de hoje conseguir ter uma conversa com qualquer agricultor. Não porque me falaram sobre isso, mas porque o André fez um excelente trabalho a ensinar e porque eu próprio dou por mim a pesquisar várias vezes sobre a temática do azeite, tal como dei por mim no café a falar sobre azeite como se de um antigo azeiteiro me tratasse.

A colheita da azeitona é um processo simples, porém de alguma exigência física: a chegada às 7h aos terrenos com frio, humidade e nevoeiro, bem como a primeira passagem da varejadora pelos ramos da árvore causam no corpo uma sensação de frio, de paralisia até, pela água gélida que cai e pela exposição da mínima secção de pele em contacto com a atmosfera. A passagem das horas de trabalho marca também o aparecimento de dores musculares, nos ombros por segurar a máquina acima da cabeça ou nas pernas, por caminhar no terreno lavrado, de oliveira em oliveira carregado com a máquina. Diz o André que ao 4º dia já não se sente nada e diz a minha experiência que ao 3º dia sabes se gostas disto ou se é só uma experiência para ti. Adoro isto!

Vista da máquina, ladeada pelo toldo com as oliveiras em fundo e ainda o Trator em profundidade.
O repouso da máquina

Quinta-feira acordo com o corpo dorido, cansado, massacrado mesmo! Na minha mente a dor muscular é positiva e é algo que eu procuro, porém a dor de cabeça e a sensação febril não deixam raciocinar com clareza, muito menos gelar o corpo em esforço na colheita. A decisão é de ficar em casa para tristeza minha.

À hora de almoço decido que quero fazer algo, mas que não posso estragar a recuperação conseguida com esforço físico exigente e mudanças de temperatura corporal. É hora de pegar no trator! O desafio começa na ignição, passa pela colocação da caixa de carga e termina na fluidez de condução. Dia findo e já toda a aldeia sabe que me ajeito no trator. Genro prendado!

Trator estacionado à porta.
Estacionamento à porta

Sexta-feira levo então mais um trator para o terreno. O que calhou mesmo bem, pois foi o dia em que conseguimos meter mais pessoas a trabalhar connosco e, por isso, fizemos 50 sacas de azeitona ao fim do dia! A minha felicidade e sensação de realização são tais que desta vez não sinto qualquer cansaço e carrego as sacas no trator com a maior das facilidades. O desafio, esse, foi para mim levar o trator com bastante carga atrás por entre trilhos irregulares, um dos quais lavrado, até ao armazém onde descarregávamos as sacas. Eu, que conduzia trator há um dia e que lá cheguei à primeira, sozinho. Eu, realizado.

Oliveira ao Centro. Um trator de cada lado.
Contemplação das máquinas

À noite, cerca das 22h, saio rumo à Covilhã onde pára o autocarro que traz a Marta. Ela que acabou a semana de trabalho à boleia de transportes públicos e colegas, sem carro, mas que queria também fazer parte desta experiência e de um fim de semana com desafio: Físico e emocional.

Seis e meia da manhã. Um despertador a tocar, duas pessoas a dormir. Poucos, muito poucos graus Celsius na rua e, aparentemente, menos ainda no quarto! Levantamo-nos em esforço e eu confesso que me deixei embalar pelo cansaço dela. Fiz do seu o meu e senti aquela enorme dificuldade para sair da cama. Afinal, a semana de trabalho físico fizera-se sentir! Porém, o dia era apenas o primeiro da experiência para a Marta e eu pude sentir na pele de quem vê de fora a expectativa e ânsia de começar algo que o seu avô sempre fez. De seguir as suas pisadas e lembrar dias passados ao seu lado, no campo. De andar no trator onde uma chapa metálica grava a sua memória e, mais ainda, de finalmente ser capaz de tomar conta de algo para o qual não estava preparada, aquando do falecimento de uma viga mestra do edifício que é a sua vida. Vi felicidade e reabilitação.

Fites Pires Cameira; Vale da Senhora da Póvoa; Penamacor
dav

De manhã fazemos a colheita da azeitona, a Marta desabafa acerca da dificuldade física e eu recebo uma surpresa: subitamente o André decidira que eu sou o patrão. Que eu decido o que vamos fazer. Eu…menino da cidade há 3 dias a viver uma nova vida. Perante as palavras de cansaço da Marta e rendição ao óbvio – somos poucos e cansados neste dia – tomo uma decisão: À tarde não voltamos à colheita. Vamos limpar a azeitona que temos!

Na agricultura não existem tarefas fáceis. Não existem cadeiras esponjosas nem trabalho embalado por um teclar do rato. Na agricultura todo o trabalho é físico: em pé ou agachado. Toda a tarefa requer isso mesmo: Trabalho! Eu ingénuo, levei uma tarde a perceber isso e arrastei noiva e sogra para a minha conclusão. Saca após saca, o dia foi passando e alguns 300kg de azeitona depois a sogra já sofre das costas. Custou ver mas, ela sim é a patroa e mandou terminar tudo 15 minutos mais cedo, qual chefe que premeia o bom desempenho. Pensámos que o dia teria terminado e que tudo correu bem, mas a aldeia tem uma particularidade: o paradoxo da comunicação.

Com o dia já escurecido sugerem-nos verificar junto do lagar se a reserva se mantém. O serviço que fizéramos estava entregue a alguém que de véspera confirmou indisponibilidade e que, por isso, poderia ter cancelado a reserva que efectuou. O paradoxo da comunicação da aldeia resume-se a isto: Todos falam uns com os outros ou uns dos outros. Quem fala com o outro entende-se e esclarece, enquanto quem fala do outro guarda rancor e age, bem ou mal.

O Lagar em funcionamento.
Lagar em funcionamento

Tudo na vida são lições e eu venho deste fim de semana cheio delas. Na cidade ou na aldeia, a comunicação é a base de qualquer tipo de relação e desde então tenho usado e abusado dela. Quero que tudo esteja esclarecido e quero agir com base em certezas, deixando as suposições de lado. Quero ser amigo de alguns e inimigo de nenhum. Quero paz.

No domingo fazemos o regresso, com a restante colheita entregue ao André e a quem deu a palavra. A quem comunicou. O carro, esse, vai desta vez em silêncio. Refletimos, descansamos e eu conduzo com merecidas tréguas às amígdalas.

Subitamente, tornei-me o Senhor da Azeitona.

Vista do trator para o Olival
Contemplação do Olival

12 thoughts on “Senhor da Azeitona”

  1. Não tenho palavras. Deixa-me a embeber cada palavra que escreve. Obrigada Samuel. O texto tem tudo. A dor é imensa mas o estar no caminho certo é a vontade dele!

  2. Parabéns à Marta por escolher o Samuel …
    Parabéns ao Samuel por em 3 dias ter aprendido a fazer e a respeitar o que é trabalhar no campo !…
    Parabéns à Mélita, por manter esse amor gigante à terra !!
    E, muitos muitos PARABÉNS, por este magnífico texto que só pode ser sentido, de contrário não sairia da forma como saiu !!
    ADOREI !!!

  3. nos dias de hoje é difícil encontrar um “noro” assim, parabéns Marta pela escolha, parabéns Mélita pelo prémio (noro escolhido pela Marta” e parabéns Samuel, que não o conhecendo mas conhecendo a sogra esta semana foi melhor que o euromilhões por tudo e tudo, toda a paixão que ela tem pelo Vale. O texto é bem esclarecedor da paixão agrícola que nasceu!!! Parabéns a todos.

  4. Melita!!!Melita!!!!com um genro destes tudo valeu a pena…mesmo as dores sentidas pelo trabalho árduo e realizado por gente inexperiente, mesmo com todas as dificuldades, foram resistindo e cumprindo a tarefa…Fiquei muito agradada pela descrição da escrita fácil e em que nos sentimos integradas passo a passo… Parabéns por tudo e pelo belo texto escrito por alguém que transporta naturalmente a veia de um muito bom cronista e quiçá um futuro escritor!!!!Parabéns!!!!

  5. Como mãe do Samuel sinto um grande orgulho pelos valores que lhe transmiti, apesar de nem sempre ele concordar com as minhas atitudes, mas foi o que de melhor fiz como mãe e dei de mim sozinha! Afinal ser mãe é tudo isto; ser boa e ser má! Ajudar a libertar todos os fantasmas da vida dos nossos filhos gritando e ao mesmo tempo espalhando alegria com os nossos sorrisos, para saberem enfrentar os seus medos das más energias e aprenderem, que o mais importante nesta vida é o respeito à vida e que viver vale a pena, com humildade, transparência, simplicidade e amor. Que o coração dos meus filhos Samuel e Marta (minha nova filha de coração) seja uma poção de cura e amor, a todos os que estiverem com eles. Bem hajam

  6. Samuel, adorei ler a experiência por que passaste. Excelente escrita….conseguiste transmitir emoções e deu para viver os momentos todos, um a um. Quem sabe não acabaste de descobrir uma nova profissão :). Já agora, essas sacas todas traduzem-se em quantos litros de azeite. Fiquei curiosa. Beijinhos.

    1. Lígia Rasoilo obrigado pela força! Profissão não…a escrita para mim é Hobbie e foi nesse sentido que criei o Blog. Em relação às sacas, eu não contribuí nem para metade do que foi para o lagar mas posso dizer que fizemos azeite a uma proporção de 5kg de azeitona para 1L de azeite. Beijinhos

  7. A reboque da minha amiga Maria José Lalanda, “caí” neste blogue.
    Fui levado pelo título, embrenhei-me na leitura e fiquei fã do estilo literário.
    Também eu sou azeitoneiro uma vez por ano, lá na minha santa terrinha – Pousafoles-Sarzedas – Castelo Branco.
    Ali me dirijo anualmente, com o meu irmão Agostinho, reunindo – nos à família que lá resta – o Eduardo e a Isaura, e o Nandito mais o Carlitos, seus filhos e nossos sobrinhos, os seis nos juntando à campanha que já nos espera para o “ataque” às nossas oliveiras.
    É, em meados do Outono, a nossa incursão na inigualável Charneca da Beira Baixa.
    Durante cerca de uma semana, ali permanecemos, cumprindo ritualmente todos os passos da faina, terminando com o ensacamento da azeitona, sua pesagem e acondicionamento da sacaria no telheiro, a qual fica a aguardar vaga no lagar para ser moída, para onde a transportará o meu irmão Eduardo quando para tal for avisado.
    Ele é o único irmão da família que, depois de aposentado, retornou à aldeia, conhecendo melhor que ninguém as voltas da azeitona e do azeite, já que foi ele o grande impulsionador da construção do novo lagar, que fica a menos de quinhentos metros da nossa casa.
    São importantes momentos de reencontros para todos nós .
    Ajudam-nos a recordar os nossos primeiros tempos até à infância, a não nos esquecermos de onde viémos e aonde realmente pertencemos e a dar mais valor à épica odisseia dos nossos pais pelos trabalhos que passaram a fim de que fossem diferentes das deles as nossas vidas!
    Naquelas ocasiões, quantos filmes das nossas vidas revisionamos, sentados à volta da lareira, onde a chama tremeluzente da fogueira nos alumia e o calor do braseiro nos aquece, depois de termos matado as saudades das comidas da mãe, aquelas couves tronchudas e suculentas da horta, a acompanhar uns belos gravanços com bacalhau ou um saboroso cozido de enchidos e carnes de porco sacadas da saladeira, tudo ao cuidado da cunhada Isaura, esmerada cozinheira, e acompanhado de um generoso tinto a preceito, daquele que jorra das pipas na adega, capaz de arrancar tridentes notas da garganta a um mudo!
    Falta dar conta de um pormenor: a nossa última tarefa é retirar das cestas a azeitona seleccionada na operação de escolha para ser consumida em espécie.
    Cada um trata da sua.
    Consoante a que cada um quer, uma parte é de imediato depositada num pote, sendo a outra parte submetida à operação de cortes longitudinais – a azeitona retalhada – que se deposita num outro pote. Coberta com água do poço, a do primeiro pote é logo ali salgada, sendo para consumir ao longo do ano depois de ter adoçado com mudas sucessivas de água nas semanas seguintes; a retalhada é para consumir nos próximos tempos, assim que der sinal de mudar de cor, sendo retirada do pote à medida das necessidades e no momento salgada a gosto.
    Chegou ao fim a nossa campanha. O azeite irá mais tarde. Mas nós – eu e o Agostinho – vimos chegada a hora do nosso regresso a casa. Despedindo-nos dos que ficam, levamos na bagagem a saudade dos que já partiram, da nossa meninice descuidada e dos tempos que não voltam mais mas de que há sempre histórias de vida para contar!
    Dentro do carro, o silêncio é de ouro. Estrada fora, fico-me a dar graças a Deus por, mais um ano, me ter dado vida, saúde e forças para mais este regresso às origens, para mais uma imersão no passado…
    A meu lado, absorto nos seus pensamentos, o Agostinho estará, decerto, desfiando um rosário de recordações semelhante ao meu…

    1. Muito obrigado pela partilha José. Adorei ler! Por favor mantenha-se visitante do Blog e presenteie-me com mais comentários destes!
      Sugiro subscrever as notificações por e-mail, no fim da página. Um bem haja!

      1. Obrigado pela simpatia. O mérito é seu – do seu texto – pelo impulso que me transmitiu, pela motivação que me deixou. Gostei muito. Espero podermos continuar por estas bandas, assim a vida o permita e eu não me perca no enleio destas redes – sou um “novato” nestas andanças das redes sociais…
        Saudações beiroas.

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