Novo por Velho

Atualmente, e mais do que nunca, o poder de compra está ao rubro! Lembro-me de quando era novo – 6 anos de idade, sensivelmente – e o meu pai me contava que com a minha idade ele não tinha sequer uma televisão em casa, quanto mais uma por divisão! Que a televisão era a preto e branco e que, mesmo assim, era um grande esforço financeiro poder contar com uma! Lembro-me de ir com a minha avó ao mercado e lhe pedir um saco de gomas e, conforme a altura do mês, ela oferecer ou não. Lembro-me desta expressão:

– Filho (como ela carinhosamente me chamava), a avó não tem dinheiro. Quando a avó receber a reforma vimos cá e levamos um saco cheio de gomas, está bem? Eu aceitava e, mais uma vez dependendo da altura do mês, a senhora da loja optava por me oferecer uma, sob a condição de eu me portar bem.

Lembro ainda da época da mudança da moeda, que coincidiu com a fase em que eu comecei a mexer em dinheiro. Da luta diária de todos os portugueses para calcular a equivalência em escudos da quantia pedida em Euros e da confusão que era para mim compreender o que era caro e barato, pois nunca tinha tido essa noção! Lembro-me do dia em que percebi que 500€ era muito dinheiro e perguntei à minha mãe se ela ganhava esse dinheiro todo!

Hoje em dia sou adulto. A minha consciência ainda diz que 500€ é muito dinheiro, afinal de contas eles significam tudo para mim: sozinhos, não pagam a renda da casa onde habito com a minha noiva e o meu cão, ou onde dorme a minha Dirqwana: a mota velha que troquei por uma nova.

Na minha cabeça eu sinto-me pobre e rico, sinto que ganho bem e que ganho mal. Sinto-me capaz de cumprir com as minhas responsabilidades financeiras e de alimentar alguns hobbies, nomeadamente o de andar de mota! Sinto no entanto que a vida é feita de escolhas e que se quero passar um fim de semana fora a andar de mota, não posso passar outro fora com a minha noiva. Sinto que se tiver 5 jantares fora não posso mudar um kit de transmissão nesse mês e sinto que, se existir um mês em que quero mimar toda a gente cá em casa, no final do mês tenho de abdicar de sair da rotina, de me divertir e, às vezes, até de comprar algumas coisas para casa.

Não sou hipócrita: não sou financeiramente, e muito menos espiritualmente, pobre. Aprendo com todas as decisões da minha vida e excedo-me talvez mais do que devia. No final das contas eu procuro viver e sentir que fiz tudo o que estava ao meu alcance para que este mundo saiba que cá estive, mas também para que eu próprio saiba que por cá passei, e disfrutei.

Há seis meses atrás troquei uma mota “nova”, de 2013 com 55000 quilómetros, 30000 dos quais feitos nas minhas mãos, por uma “velha” de 1994, com 62000 quilómetros. Tive receio, hesitei e refleti bastante antes de isto acontecer! Por um lado estava a gostar cada vez mais de me aventurar em Todo o Terreno com uma mota que não era vocacionada para isso, sentindo portanto que a estava a estragar, por outro lado sabia que tinha uma mota fiável nas mãos, da qual conhecia todo o historial mecânico e isenção de despesas descontroladas.

À minha espera estava uma clássica, que assim é caracterizada pela fiabilidade comprovada pelos anos que durou no mundo motociclístico, envolta no entanto em mistério quanto ao seu real estado mecânico e ciclístico. Uma mota isenta de Imposto Único de Circulação, mas que consumiria algures entre os 6 e os 10 litros aos 100 km. Uma mota linda de morrer, literalmente, pois à época em que foi lançada não existia ainda qualquer agente de segurança ativa, controlada eletronicamente por um qualquer sistema de norma Euro4, tipo o ABS ou controlo de tração (perdoe-me o dramatismo quem lê. Sou um realista motociclista que circula todos os dias na estrada, sob qualquer condição meteorológica e física).

Consumada que foi a troca, foi hora de me adaptar às diferenças e particularidades de quem possui um clássico: uma atenção aqui e ali, que é como quem diz um aperto neste parafuso, a troca daquele componente que teima em estragar, a ferrugem num ou outro ponto da mota, ou até o pormenor de não saber quando tenho que ir à bomba de combustível. Tudo questões ultrapassáveis, que me levam hoje a dizer, na brincadeira, que a minha mota veio com um curso de mecânica incluído!

Foi um ato que contraria a tendência do mercado, de trocar velho por novo, este que eu pratiquei. À minha volta muitos amigos deslumbram com a sua mota nova, ostentam o último acessório da moda e seduzem com a ideia de que também eu posso, e consigo! É um mundo diferente o de hoje, comparado com o mundo da época em que o meu pai me contava a vida da sua infância, ou da época em que eu ia ao mercado com a minha avó. É verdade que estudei, calculei e namorei o último modelo da mota que hoje dorme na minha garagem, porém ainda sou um menino. Ingénuo, de raízes humildes, que retira o melhor do que tem, ou que pelo menos nisso acredita.

Sou feliz com o que tenho e gosto que assim seja à minha volta.

Novo ou Velho?

6 thoughts on “Novo por Velho”

  1. Fizeste uma excelente opçao .tambem.eu fiz o mesmo mas por motivos de saúde de uma.de.2014 por uma de 2007 sem qualquer mariquice electrónica tens maquina para durar vao se os aneis ficam os dedos compram se aneis mais baratos

    1. Obrigado Nuno pelo comentário! Estou bastante satisfeito. Claro que me babo com as novas, e penso que até teria menos trabalho e dores de cabeça, mas gosto assim…

  2. Há uns anos troquei um BMW 320d de 2001 por um mercedes E220 de 1995… Não estou nem um pouco arrependido…E tenho outro Mercedes de 1979…

  3. Boas eu também troquei uma de 2014 por uma transalp 650 2000 e nada arrependido e possivelmente a melhor moto do mundo .e manutenção barata e fiável.

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