Honda XRV750 – “1ª” Revisão

Diz-se que mexer na sua própria mota/carro/bicicleta melhora significativamente a relação entre proprietário e veículo. Estamos a falar da relação entre um humano e um objeto, por esse motivo só podemos esperar amor, afeto, carinho e estima a ir num sentido desta relação, mas é precisamente essa estima do humano pelo objeto que cria a fiabilidade da máquina, a fidelidade da relação cada vez mais duradoura e aquele desejo de juntos devorar quilómetros, faça chuva ou sol.

Eu sou aquela pessoa que nunca se deu à mecânica ou à electrónica, mas que sempre admirei o meu pai por conseguir resolver um problema de qualquer ordem sozinho, sem recurso a técnicos ou mecânicos. Por isso, desde que comprei a 1ª mota tenho tido cada vez mais interesse pelo domínio da máquina que se tornou o meu único meio de transporte, para além das sempre capazes pernas. Tenho mexido, sujado, estragado, desapertado tantos componentes das minhas motas quantos me sinta confortável a mexer, e tenho aumentado progressivamente a quantidade destes.

Neste momento assusta-me ficar à beira da estrada à espera do reboque, ficar dependente da disponibilidade do mecânico para fazer um trabalho de uma hora ou pagar centenas de cifrões da moeda comum aos países da União Europeia, mas que caminha a passos largos para a declaração de extinção, pelo menos no meu bolso, que dependendo das calças usadas pode mesmo ter um furinho algures a contribuir para este fenómeno.

Por ter trocado uma mota de 2013 por uma de 1994, separada da minha idade por cerca de duas dezenas de meses (a menos), os meus episódios de ansiedade injustificada e medo do recurso à sola dos sapatos duplicaram, levando-me a agir. Senti que mais do que nunca urge rechear a garagem de ferramentas e que esta é também a hora de sujar as mãos e aprender o básico: a revisão da mota! Para me ajudar com a aprendizagem, o destino encarregou-se de atravessar no meu caminho uma das últimas boas pessoas a habitar este mundo: o Frederico.

Conhecemo-nos primeiro no seu local de trabalho, onde estacionei a mota para umas compras simples e para receber o sempre valorizado elogio à mota:

– Estou à espera da minha, faltam duas semanas e já não aguento! Ainda por cima meteste a tua bem bonita à minha frente! – disse o Frederico, ansioso pela chegada da sua máquina, reservada como se de um último e moderno modelo se tratasse, ainda sem matrícula.

Até chegar, a minha vai somando quilómetros pelos dois! – respondi eu, numa breve exibição dos meus dotes anti-sociais, logo retratados:

Fica combinada uma volta conjunta quando a tua menina chegar! – rematei.

Terminei as compras, despedi e segui a minha vida para as tais duas semanas depois ele conhecer um amigo meu, à porta de uma loja, onde conversaram bem para lá da hora de fecho desta, por coincidência. Foi um raro momento em que senti que um amigo com mais capacidades sociais que eu concluiu o processo de aproximação por mim. O Frederico acabou ainda por, nesse dia e por coincidência, ver um dos vídeos de ilustração às Férias de Verão, tendo-me reconhecido de imediato! Estava escrito que esta pessoa passaria, de alguma forma, a fazer parte da minha vida.

Mecânico de paixão e profissão, desenrascou-me uma vez com umas luzes que teimavam em não encaixar na mota. Publicou dias depois uma foto com a revisão completa à sua Africa Twin e aí não resisti, pedi para fazer o mesmo à minha, com uma condição: Deixa-me assistir!

Não só assistes, como participas e aprendes comigo o máximo possível! – respondeu com prontidão um Frederico que valoriza mais a comunidade e amizade do que o negócio e lucro.

Deu-me uma lista de compras, sugeriu um local para essas compras, onde trabalhara em tempos, e combinou comigo a hora de encontro para a revisão, na sua garagem. Adormeci, cheguei cerca de 45 minutos atrasado e ainda assim tinha toda a sua boa disposição à minha espera. Na sua garagem iniciamos a desmontagem, já acompanhados de um amigo do seu irmão com uma MT-07 para o mesmo fim e um outro amigo seu, que o ajuda no trabalho caseiro e ainda na preparação de um carro que, pelo que percebi, pertence aos dois.

Durante 3 horas desapertamos, desmontamos, substituímos, comigo a prestar o máximo de atenção e com um ambiente de convívio fenomenal naquela garagem. Lutámos contra alguns parafusos da carenagem, substituímos o óleo e filtro da mota, desmontámos o depósito e substituímos também as 4 velas da mota, sendo que uma delas deu uma luta digna de um treino de qualquer Personal Trainer em modo desportivo! Verificamos um ou outro componente que eu peço e terminamos o trabalho.

O caminho para chegar às velas.

No final, o Frederico recusa dinheiro, mas sabe que não se escapa a umas rodadas por minha conta! Pede companhia para rolar, um café à noite e deixa aberta a sua porta para eu lá intervir na minha mota, com as suas ferramentas e supervisão. Conta a história de um amigo que abusou da sua boa vontade e porque faz este tipo de trabalho com amigos. Há muito tempo que eu não lidava com uma boa pessoa, das genuínas!

Termino a revisão com um valor total gasto de apenas 45€ em filtro de óleo e 4 garrafas de 10w40, isto porque eu já tinha comigo as 4 velas, oferecidas pelo antigo proprietário da minha Africa Twin que não ia precisar delas.

Vista assim, parece que vai ser vendida às peças!

6 thoughts on “Honda XRV750 – “1ª” Revisão”

  1. Não podia deixar de comentar este post!! Como é óbvio já tinha ouvido falar de ti mas com o que li agora já ganhaste o meu respeito. Esta pessoa de quem dizes ser “uma das últimas boas pessoas a habitar este mundo” é a pessoa com quem partilho a minha vida e adorei ler este post (mesmo que o mundo das motas não seja o meu) partilho claramente um gosto igual ao teu: a escrita. Nota-se a ‘leguas’ a vossa paixão, continuem! 🙂

    1. Obrigado Débora pelas palavras! É sempre bom quando os elogios calham aos nossos, mas estes foram sinceros e espontâneos, por isso mais do que merecidos! Sejam felizes!

  2. Tendo uma AT exactamente igual e tendo andado no último mês nessas andanças, revejo-me em cada palavra e sentimento partilhado… Excelente! 😊

    1. Obrigado pelas palavras Paulo! Estas nossas motas vêm com um curso de mecânica incluído 😁

  3. Todas as motas vêm com um curso de mecânica incluído, basta que esse sentimento e alguma dose de coragem desperte nos seus donos. Com pesquisa e ferramenta tudo se faz. Muitos Parabéns pelo artigo.

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