Dakar Series 2018

Nota prévia: O evento foi uma desilusão! Isso não quer dizer, no entanto, que eu não vou ser construtivo na minha análise.

Este evento foi o meu baptismo em “provas” de aventura em Offroad, organizadas e com suporte logístico. Foi uma tentativa minha de participar em algo que considerei seguro para ganhar confiança em cima de uma mota de 200kg em troços que criam instabilidade na mota. Eu que apenas experimentei este tipo de andamento sozinho num trilho pequeno próximo de casa, e numa parte do ACT com a minha anterior mota, que se provou em Gouveia não ser de todo uma mota para este tipo de aventuras. Hoje sei que tenho realmente uma mota “Dualsport”, de apetência para Terra, Rocha e Alcatrão…eventualmente umas poças de água à mistura também!

Mota fora de estrada
Em Terra, Rocha e Alcatrão

Em Julho, depois de consumada a troca para a minha Dirqwana (Honda XRV750 Africa Twin), comecei a sondar junto do meu grupo de amigos das Trail quem queria participar nesta prova, por ser a primeira do calendário e organizada por um grande nome no seio motociclístico: Longitude 009 / Touratech. Face à falta de interesse geral, também o meu interesse foi esfriando até ao dia em que o Bruno, já conhecido destas páginas e inevitável padrinho do meu baptismo se interessou subitamente, algures entre meados de Agosto e inícios de Setembro, levando à minha participação. A partir desta data começou a aventura, pelos contornos da logística e pelo que sucedeu no próprio evento. É de considerar que eu tinha dito para mim que provavelmente não ia escrever sobre o evento, por questões de publicidade que não quero fazer e também porque optei por fazer o evento como forma de realização pessoal e de diversão, fora do contexto de aventura pura que costuma alimentar este Blog. Ia-me ficar pelo Instagram, mas foi inevitável!

O evento começa bem antes da data anunciada pela organização, atendendo a toda a logística preparatória que lhe antecede:

  1. Pagamento antecipado de 150€ pela participação + seguro de 5€ = 155€ (já vamos ao que isto inclui)
  2. Pesquisa, compra e montagem de pneus. Eu optei pela versão “Low budget” e consegui no OLX um Metzeler Karoo3 para trás por 25€, em estado de novo e para a frente um Mitas E10 usado mas com uns 2000km feitos no máximo, por 20€. Paguei na Motocenter 32€ por montagem + calibragem da roda da frente. Total de 77€.
  3. Pedido de umas botas emprestadas Fox, de Motocross. Excelentes!
  4. Colocação de um par de espelhos retráteis, apenas porque caí a duas semanas da prova e parti o espelho esquerdo. 30€ o par.
  5. “Dispensa” do trabalho na parte da tarde, correspondendo a uma perda de 10€.

A minha profissão é de rendimento algo sazonal. Não ganho o mesmo todos os meses e tenho os meses de Agosto e Dezembro como os meses de menor rendimento. Sendo que em Setembro/Outubro ainda estou em tentativa de ascensão salarial, a presença no Dakar Series iria implicar forçosamente um esforço orçamental cá em casa, numa manobra de gestão que apenas me beneficia, mas que prejudica ambos que partilhamos rendimento e despesa. Como em tudo na vida, quanto maior é o esforço feito, maior é a expectativa! Altura então para resgatar a nota prévia deste Post, no primeiro parágrafo.

Chegada a Sexta-feira pré-Dakar, eu e o Bruno combinamos ponto de encontro ao qual eu chego, num raro vislumbre de incumprimento pontual meu, meia hora atrasado. Uma troca de papéis portanto.

Seguimos rumo a Mação (onde mais?) para entrar no troço do ACT e fazê-lo em sentido contrário até ser noite. Foi o nosso aquecimento fora de estrada, a minha quase adaptação às botas em andamento “desportivo” e a oportunidade de molhar as motas numa travessia fluvial…fracassada. Ribeira seca, mereceu ainda assim a foto e vídeos da praxe.

Ribeira seca
Travessia fracassada da ribeira

Posta a noite a meio de um trilho saímos por estrada rumo à Sertã, num curto reviver das férias de Verão para lá jantar, seguindo depois para a Lousã, onde pernoitaríamos de barriga cheia e pneus quentes até às extremidades, graças às sempre prazerosas curvas desta Serra!

Finalmente, manhã de dia 29 de Setembro, Sábado! Partimos rumo a Gouveia, onde tudo começaria com o Secretariado, o Briefing e o arranque geral rumo ao Trilho…só que não. Os participantes reunidos na escadaria da Câmara Municipal de Gouveia para o Briefing recebem a informação de que o evento esteve na iminência de ser totalmente cancelado durante a semana; de que receberam autorização do ICNF (Instituto de Conservação da Natureza e Floresta) às 9h de Sexta para realizar o evento, mas que uma chamada às 17h o voltou a proibir; de que o risco de incêndio nesse dia era máximo e que o evento não decorreria – pelo menos nos mesmos moldes – enquanto o risco de incêndio não descesse pelo menos dois níveis, para a cor amarela.

A resposta geral foi o silêncio, intermediado pela justificação da organização de que são uma entidade creditada e que por isso têm as Leis para cumprir, de que querem manter tudo legal e de que nem o seguro funciona se assim não o for. Pouco havia a dizer face a uma justificação tão óbvia, e pouco havia a fazer senão seguir a sugestão de seguir por estrada ao longo da Serra da Estrela até ao ponto do almoço, em fila organizada.

O desapontamento inicial é provisoriamente esquecido nas curvas e vistas sempre memoráveis desta Serra que é sem dúvida a Estrela maior da beleza montanhosa do país! A paragem é algures num vale com uma casa de banho, uma capela e um barbecue, devidamente coberto por árvores que nos dão sombra quanto baste, tal como ao Catering que coloca à nossa disposição dois belos queijos da serra amanteigados, broa, dois tipos de pão com recheio, bolos, fruta, água e refrigerantes variados. Foi uma agradável surpresa face à minha expectativa, pois a organização referira almoço volante a meio do percurso, e de volante só mesmo a carrinha que transportou toda esta vastidão alimentar para o nosso percurso.

Dakar Series 2018
Toda a gente disfrutou do almoço oferecido

Sem rede nos telemóveis, inicia-se um rodopio para cima da montanha por parte da organização, de forma a fazer nova chamada ao ICNF, em busca de autorização não concedida. O evento, tal como foi idealizado, não vai acontecer. É feito novo Briefing para comunicar que o evento continua, apenas em moldes diferentes, por alcatrão; que o evento está pago, e que por isso nada há a fazer (entenda-se, não serão feitas devoluções de qualquer quantia) e que estão a pensar repetir o evento em Novembro, com um valor simbólico para quem marcou presença neste de forma a compensar os presentes. Nesta altura instalam-se todo o tipo de ideias no pensamento:

  1. “Venderam-me um evento Offroad, estou a ser defraudado”
  2. “Já sabiam disto ao longo da semana, não podiam cancelar antes de cá chegarmos senão teriam que devolver o dinheiro”
  3. “Não quero saber deles, vou fazer Offroad na mesma”
  4. “Serra da Estrela é Reserva Natural, há risco de ser apanhado”
  5. “Compreendo que têm que pagar a logística, ordenados do staff, catering, dormida de sábado, restaurante de sábado e de domingo, transporte do hotel para o restaurante e autocolantes. Talvez 155€ paguem isso tudo”
  6. “Um novo evento a pagar um valor simbólico não é uma compensação”
  7. “155€ não são trocos para mim”
Dakar Series 2018
Sorrisos amarelos após as más notícias

Passados 30 minutos de incoerência de discurso, reflexão e análise do track, eu e o Bruno decidimos então seguir por fora de estrada até ao fim do dia 1. Devidamente acompanhados pelo Luís Carvalho, conhecido nas lides motociclísticas por Mountain Rider e pelo David, que viera com ele, seguimos ao longo de um track bem escolhido, de dificuldade fácil, com uma zona um pouco mais técnica disfrutando e em ritmo de passeio, com paragens constantes para registar vídeo e foto. Estava então consumado o meu baptismo! Foi um caminho de ganho gradual de confiança, de deixar a roda de trás fluir um pouco, mas sempre sem impacto visual. Terminamos satisfeitos com o trilho e com a nossa decisão, rumando ao hotel para banhos e descanso até à boleia para o restaurante.

É precisamente na boleia para o restaurante, em autocarro dedicado, que constatamos o facto: a organização foi de facto excelente! Trilhos excelentes e muito bem pensados, um catering ao almoço bastante completo e a pensar realmente em saciar quem participa num evento que cansa bastante, numa zona onde a gastronomia é excelente, um hotel que não sendo bom também não é mau e com estacionamento fechado para as motas, lembranças de todos os tipos, jantares nos melhores sítios da região, como o Albertino, no Folgosinho, onde jantámos para lá de bem, até não caber mais um centímetro alimentar no interior do corpo.

Terminado o jantar foi tempo de convívio. De constatar que o mundo das motas é algo pequeno e de que havia gente que sigo no Instagram e que só descobri que lá estavam porque publicaram fotos. É embaraçoso reconhecer que se segue gente que não se conhece e ainda mais é estar a um palmo dessas pessoas e não as reconhecer, mas enfim, evidências do século XXI e da tecnologia que o conquistou. Vivemos com isso, e com o convívio à antiga, que nos levou a reunir um grupo de 10 pessoas para o “invento” do dia seguinte. Seguiríamos o trilho do dia 2 à rebelia da organização e à nossa responsabilidade.

Caminhos de Santiago
Ponto de partida do track do dia 2

O início do trilho, assinalado como Caminho de Santiago, assegurou-me de que fiz novamente uma boa escolha, tal foi a qualidade do trilho e da vista que o decorou. Foi também o dia em que a minha confiança em Offroad atingiu máximos nunca antes experimentados, com um ou outro slide que já souberam a descontrolo e com mais frequência a rolar em 4ª (wooow, cuidado comigo). Não posso no entanto deixar de remeter novamente para o primeiro parágrafo, para a nota prévia:

O grupo seguia partido em dois grupos de 5 elementos. Nós, os da frente, estávamos com um andamento interessante e seguíamos alegres e contentes pelo trilho até que uma interseção em alcatrão fez soar os alarmes: Furo! Respirei fundo porque não foi comigo, especialmente por toda a logística que testemunhei com o companheiro da F800gsa e o seu seguro. Eu tinha espuma anti-furo e pude ver pela primeira vez a forma de utilizar essa ferramenta que comprei uns dias depois de comprar a mota, talvez porque acreditava que sabia andar fora de estrada. Sem resultado, telefonámos para a organização – já depois de saber que o seguro do Pedro queria deixar a mota numa oficina da Guarda e posteriormente pagar a um táxi para o trazer do Porto até à mota – que se prontificou a perguntar entre os já presentes no almoço se alguém teria câmaras de ar e “sacas” para emprestar. A resposta foi positiva, existia solução, mas tínhamos de os ir buscar e, pior, nenhum de nós no grupo de 10 que entretanto se voltou a juntar tinha habilidade ou experiência na desmontagem de rodas e troca de câmaras de ar…o seguro teria que ser a solução.

Neste momento a minha desilusão para com a organização voltou, talvez por novo excesso de expectativa da minha parte. Eu acreditava piamente que ao pagar para participar num evento conseguia contornar as necessidades que uma verdadeira aventura acarreta, nomeadamente a reparação de furos, a retirada de uma mota do trilho caso fosse necessário ou até a presença de uma equipa médica ou de material de primeiros socorros ao longo da caravana. Constatei que não só teria este tipo de problemas se fizesse o “invento” sem responsabilidade da organização como se fizesse o evento tal como estava planeado de início, com apoio da organização. Levantou na minha cabeça a questão: “Até que ponto preciso de pagar a uma marca para me dizer onde durmo, onde como e que caminho faço?”. Bom, a verdade é que se tudo tivesse corrido bem provavelmente eu estaria totalmente satisfeito por esta altura e a pensar quando faria o próximo. Adianto ainda que, mesmo com a desilusão, surgiu no ar a ideia de fazer o “Nosso Dakar”, também organizado pela mesma marca, portanto a minha desilusão é precisamente face à expectativa e não necessariamente face àquele que foi o trabalho da organização.

No final do dia 2 ficámos eu e o Bruno a fazer companhia ao Pedro, que aguardava a chegada do reboque, enquanto a restante comitiva seguiu – e bem – para o resto do trilho ou para o merecido repasto no restaurante Fonte dos Namorados, em Melo. Eu só sentia que queria fazer aquilo que gostava que fizessem comigo, e o Bruno concordou e ainda carregou o nosso novo camarada a pendura na sua mota até ao nosso já tardio almoço.

O evento termina com a entrega dos autocolantes – para recordação – e despedidas, com uma palavra da organização para connosco, o grupo que ficou para o fim. Seguimos ao hotel buscar a bagagem, entregar o Pedro ao Táxi, que o levaria até à Rodoviária, que o levaria até ao Porto e seguimos viagem pela Serra da Estrela rumo à Torre e depois A23. Na Torre tempo para fotos, lembrança para a namorada que ficou sozinha o fim de semana até às 21h e para a já habitual dose de inspiração e meditação rolante, que só esta Serra sabe proporcionar.

Ponto mais alto de Portugal Continental
Foto final na Torre

Como nota final quero rematar que me diverti, que senti a particularidade de ter um grupo organizado e que por isso promove um convívio muito mais vincado. Quero dizer que por vezes sabe bem ter quem pensa em tudo por nós e que só pede o valor a pagar por essa logística, no entanto também eu giro um negócio e assumo que por vezes os meus clientes saem lesados por situações que não controlo, aos quais eu compenso com prejuízo meu, financeiro ou de tempo. Bebi algum conhecimento de quem sabe muito mais disto do que eu, falei com vários membros da organização, que sempre se souberam justificar bem e por último soube bem receber finalmente uma palavra próxima e individualizada do principal responsável pela organização.

Oxalá tenha possibilidades, gasolina e mota para fazer mais eventos, cada vez melhores! Oxalá tenha na minha vida muito mais aventura para contar e, melhor que tudo, para recordar!

3 thoughts on “Dakar Series 2018”

  1. Fizeram bem em ir ao evento e dar uma escapadela por terra!
    Esse e’ o espirito do Adv Rider!!
    Abracos

  2. Não surpreende. Da minha experiência nesses passeios as organizações com larga experiência e sempre boas, são quando tudo corre bem! Quando há problemas, o amadorimos destas organizações torna-se bem evidente.

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