Review – Honda NC700x

Confirma-se: Vendi a mota! A minha Honda NC700x, segunda mota na minha posse. Talvez a mota que me ensinou a gostar de motas, sem dúvida a que me ensinou a conduzir! Por esses motivos e por não existir qualquer interesse comercial por parte deste blog deixo aqui a revisão mais honesta, de maior espaço temporal e de maior nº de km percorridos em cima dela que se pode encontrar online!

É certo que a NC700 é uma versão descontinuada, que foi atualizada para a NC750x. Não irei certamente ajudar potenciais compradores de uma mota nova, mas poderei ajudar potenciais compradores deste modelo usado ou apenas deixar no vasto mar da internet conteúdo extenso sobre uma mota que me marcou de várias formas, mas vamos ao que interessa!

Enquadramento:

Comprei esta mota em Novembro de 2015 com 18000km no stand da MV Agusta em Lisboa: a IMEXmoto. Tinha na altura uma Virago 250 que tinha comprado em Fevereiro ou Março desse ano, a primeira moto! E bem que a Virago se esforçou por me fazer desgostar motas:

1 – Já a Virago morava na minha garagem e ainda eu não tinha terminado a carta de condução. Conduzia bem, tinha à vontade na mota e fazia as manobras todas bem. Chegado ao exame tive um qualquer colapso cerebral e entrei em contra mão junto ao Olivais Shopping. Chumbei, mas peguei nela e fui visitar a minha namorada, destroçado (não contem a ninguém que andei sem carta).
2 – Num dia de calor saí de mota para fazer 3km de casa para um Parque da minha zona. Vestia apenas calças de fato treino, t-shirt e o indispensável capacete. À porta de casa aparece um carro de frente e eu travo, virando a direção como se fosse uma bicicleta…por pouco tempo, já que acabei no chão no momento em que me tentei desviar e logo senti o calor mais latejante, na pele, do alcatrão.
3- Numa ida ao dentista atravesso a ponte e, nesse momento, sofro de uma dor muscular como nunca tinha sentido nas costas – e eu até sinto bastante dor muscular na lombar e cervical – que me prende por completo os movimentos. Em choro, literal, faço o caminho para casa debaixo de uma chuva que caiu como que por pedido expresso do submundo num dia de sol. Perto de casa, ainda a sofrer de dores, a mota perde a aderência numa descida a curvar. Vou como consigo em direção ao passeio, e lá caio.
4 – Numa ida para o trabalho, numa passadeira em dia molhado, vou em direção ao passeio para lá estacionar a mota. Do nada, e sem até hoje compreender como isto aconteceu, a mota cai enquanto eu tenho os pés no chão. Fiquei de pé.
Chopper
Mota do Demónio

Juntando estas histórias à fraca potência da mota, ao seu tamanho muito pequeno para os meus 1,85m e à minha crescente participação em passeios com motas maiores, procurei algo que fosse realmente bom e compatível com carta A2. Era como encontrar uma agulha num palheiro! E a Virago já estacionava em todas as plataformas online de venda automóvel.

Standvirtual, OLX, CustoJusto…percorri todos, dias e dias encontrando sempre motas sobrevalorizadas ou que não eram nada do que eu pretendia. Até ao dia! Mota de Stand, full extras – Tomada 12v, Vidro Alto, Punhos Aquecidos, Proteção de punhos com LED, Topcase de 37L, Descanso Central, Alarme, Proteção de corrente com Guarda Lamas, Crashbars, Escape GPR – e ao apetecível preço de, e espero não estar a enganar ninguém, 5300€! Simular crédito, perceber que não seria aprovado, contar poupanças e fazer contas à vida…até que a mãe tira 4500€ do crédito à habitação que acabara de fazer para me emprestar. A IMEXmoto avalia a Virago em 700€…nem penso, vou!

A Virago teve direito à sua última gracinha: dois dias depois de concluído o negócio recebo telefonema do mecânico a dizer que tem comprador para a mota. Mandei-o para Leiria, onde ela fora ser lavada e vendida, para duas semanas depois a encontrar de novo à minha frente, já com algumas alterações estéticas. Mas acredito que quem ri por último ri melhor, e ainda que tudo acontece por uma razão.

Diferença:

Mota mais alta, condução estranha de início: cada curva sabe a um mergulho para o alcatrão, sem se concretizar (ah, é por isso que os motards adoram conduzir e curvar? Adrenalina!?). Os extras são práticos – como serão sempre, em qualquer mota – a namorada já se sente bem em andar a pendura, não toca no chão e eu já me deito para curvar. A margem de erro para uma mota mais alta diminui e nós sentimos isso, no primeiro tombo para o lado em conjunto que demos porque a deixei ir abaixo.

Em autoestrada já consigo ultrapassar a mais de 110km/h sem quase partir a mota, afinal tenho uma 700cc…e em cidade ainda consigo andar entre carros. A diferença? A virago passa por baixo dos espelhos dos carros, enquanto a NC passa com o retrovisor do carro entre o espelho e o punho da mota. É o hábito!

Circular de mota em estrada
Circulando em estrada.

Manutenção:

A Honda NC700x faz revisões a cada 12000km. É muito espaço entre manutenções! Basta pensar que o utilizador comum faz pouco menos de 10000km por ano, fazendo assim uma revisão a cada ano e três meses.

A revisão mais cara que paguei por ela foi a primeira, em Agosto de 2016. Fiz revisão na Motorway, oficina Honda em Lisboa e, logo aquando da largada da mota na oficina e após verificação rápida, o mecânico alega que o kit de transmissão tem de ser trocado. O manual de manutenção confirma que o kit é trocado a cada 24/32000km e eu, sem perceber nada do assunto, claro que confirmo. Posso, ao dia de hoje, olhar para trás e dizer que aquele kit durava outros 12000km, mas segurança será sempre uma questão muito pessoal. Foram 350€ em mês de Agosto, no dia em que voltei de férias.

Fiz bastantes mais revisões depois desta e nunca paguei mais de 200€ por nada…até porque não voltei a trocar o kit. Sei hoje, também, que um kit de transmissão para a Honda NC700x tem um preço médio de 120€. Moral da história: sou hoje uma pessoa bem mais informada, que busca conhecimento por motas, até porque é, como se pode ver nestas páginas, uma área de grande interesse para mim.

Aventura na Mecânica
Sem vidro, nem carenagens laterais. Em descobrimento.

Consumos:

A NC700 não tem computador de bordo, ao contrário da NC750, pelo que eu não sei o valor exato da média de consumos…apenas e só porque nem se justifica fazer as contas!

O depósito leva 14 litros, com uma reserva de 4 litros. A minha condução é, por norma, um tanto ou quanto desportiva, excepto quando circulo com pendura, ou seja, ando muitas vezes em rotações altas e no limite da capacidade de travagem da menina (já vou falar dos componentes e da mota no geral). Antes de entrar na reserva, a distância que eu percorria variava entre os 240 e os 300km, o que é uma grande variação, mas não tão grande que faça o consumo disparar acima dos 5L/100km! Em média, digamos que esta mota é uma Trail citadina de 700cc que faz consumos de scooter…Nada mau!

Fiz algumas viagens curtas dentro do país e outra até ao Sul de Espanha e por norma atestava ao mesmo tempo que os meus amigos com motas maiores. Regra geral, e andando acompanhado, eu sabia sempre que se atestasse ao mesmo tempo que todos estaria sempre descansado, pois não seria eu a mandar parar o grupo para pôr gasolina, e isso até é uma vantagem, pois permite estar descansado a curtir a viagem, sem preocupações.

Trilho Serra de Sintra
Pequeno Troço offroad com vista para o troço e manómetro da mota.

Versatilidade:

Entramos no capítulo que eu ansiava por escrever! Eu comprei a NC iludido, a pensar que ela daria para fazer tudo, sem qualquer dificuldade. Para termos uma noção daquilo que eu considero tudo, pensemos em…TUDO! Influenciado pelos meus amigos motards e especialmente pelo mais experiente em Offroad, acreditei seriamente que teria mota para a filosofia de vida que queria adotar. Sei hoje que a mota realmente é capaz de mais do que a marca vende, mas também sei que face à limitação de motas disponíveis no mercado com o meu orçamento e limite de Carta de Condução (A2), eles quiseram passar para mim um sentimento de otimismo e realização pessoal. Eu agradeço!

A NC700x é uma mota Trail, relativamente alta e, por isso, com um potencial de percorrer km’s de forma confortável, em posição vertical. Mantendo o banco original, e pensando na média de utilizadores de mota, vamos assumir um limite de 250km seguidos em viagem sendo que ultrapassada essa distância é provável que aconteçam dores de rabo, ou de costas. As rodas são 17” e de jante normal, pelo que não tem capacidade para pneus cardados. Pode levar pneus mistos numa relação de 90/10%, ou seja, mais vale colocar estradistas puros! Mas aqui entra a parte interessante:

Encorajado pelos mesmos amigos otimistas, com gosto pelo Offroad, surgiu o desejo de realizar parte do ACT Portugal, experiência que pode ser lida aqui.
Honda NC700x em modo Offroad

Em cidade, esta mota apesar de alta é estreita. Aliando este fator ao seu consumo, está perfeita para circular entre carros, no trânsito! Sendo uma 700cc, ela não luta para chegar a velocidades de 120, 140 km/h, o que faz com que cumpra bem no trânsito e em autoestrada. Outro fator que joga bastante a favor desta mota é o facto de ter um compartimento para bagagem onde geralmente está o depósito nas motas comuns. Com uma topcase fica uma mota com excelente capacidade de bagagem, ideal para um estafeta e até para quem vai às compras de mota e traz no máximo 4 sacos de compras. Cabe um capacete nesse compartimento, o Met-in, mas o meu particularmente não. Pelo que eu usava principalmente a topcase e tinha o met-in vazio, para eventualidades.

Resumo:

Eu considero esta mota uma excelente opção para quem faz do uso de uma mota uma obrigação. Tem excelentes consumos, é versátil, faz viagens e carrega pendura + carga. No entanto, acaba por ser boa em tudo e por não ser excelente em nada…para além do consumo!

Tem capacidade para viajar, sozinho ou acompanhado, de ultrapassar os limites legais de velocidade e de manobrabilidade fácil em cidade. Com uma capacidade de carga espetacular, poderá levar malas laterais apenas na eventualidade de fazer viagens de uma semana ou mais.

Finalmente, devem ser identificados os pontos negativos desta mota:

Para quem já teve outras motas, especialmente para quem já conduziu cilindradas iguais ou superiores a 700cc, tem um enorme desgosto com uma mota que é extremamente suave de prestações, obrigando a uma condução extremamente desportiva para tirar rendimento dela. Em versão base, está dependente de alguns extras para otimizar a mota à utilização que cada um fará dela, sendo que um vidro alto será essencial para qualquer tipo de utilização e um escape será a forma de não enjoar com o ruído de scooter e colocar um cavalinho a mais na mota. Tem uma embraiagem (que foi revista na 750x de 2016 para cima) que não faz bem o seu trabalho e que, por isso, faz estalar muitas vezes na colocação de mudanças. Um problema que é atenuado com boa lubrificação e com Faher no óleo. Há ainda a destacar a vibração que se sente em rotações um pouco mais altas.

Falando de componentes, devo destacar que aquele que mais me desgostou foi o travão. ABS atrás e à frente mordido por pinças Nisin. Experimentei algumas pastilhas de travão diferentes e apenas as de origem me fizeram mais de 6000km. Em descidas exigentes (fora de estrada, ok, a marca não aconselha), o travão fica muito pasteloso, ou seja, aperto a manete e parece que não trava, desliza mesmo. Com malha de aço no travão acredito que esse problema fosse resolvido, mas nunca experimentei porque lá está…aconteceu-me 95% das vezes a fazer aquilo que a marca não aconselha que se faça com esta mota.

Voltinha de curva e contracurva, em modo de descoberta.

Reentrando em modo pessoal e sentimental e saindo do modo neutro e isento, devo destacar que para mim esta mota foi uma verdadeira escola. O melhor que tive, até porque foi a segunda, e destacado ao ver que amigos com motas consideradas melhores lutavam por acompanhar em algumas circunstâncias.

Digo e repito para todos, que o que me fez mudar de mota foi a minha necessidade de ter algo 100% versátil: Algo que me permita viajar, sozinho ou com pendura, fazer Offroad, divertir-me e circular na vida quotidiana em cidade. A NC não permitia aventurar em Offroad com qualidade, pelo que eu nunca disfrutei a 100% daquilo que seria possível, mesmo que tenha disfrutado bastante nas experiências que tive com ela, algumas publicadas no blog!

Vendi a mota no passado dia 4/06/2018 com 53000km.

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